segunda-feira, 20 de outubro de 2008

A Tragédia de Santo André. De quem foi a Culpa?

Leila Jinkings

O episódio de Santo Andre, quando duas meninas foram sequestradas pelo ex-namorado de uma delas, emociona a todos nós. A desastrada operação de resgate indigna a muitos.

A PM paulista proporcionou cenas que se assemelham à comédia de cinema mudo. A diferença é que as cenas eram reais e envolviam tres crianças de tres famílias de gente simples, que assistiam impotentes o desenrolar das tentativas de solucionar o problema. Durante longos quatro dias os telejornais (à exceção, justiça se faça, da TV pública – TV Brasil) estavam tomados pelo espétáculo. Dia e noite, se não havia novidade, repetiam do mesmo.

Deu tudo errado. E agora, a quem culpar? A tonteria do resgate foi seguida pela da mídia, que não sabia como explicar o desfecho. Em São Paulo, a mídia dá um tratamento desproporcional às tragédias e às fofocas, de acordo com seus interesses e simpatias. Não pratica o bom jornalismo. Há quem tente explicar, como o jornalista Mauro Carrara, que afirma em artigo publicado no dia 19, que o governador Serra dá ordens nas redações, pauta e demite.

Enquanto o cel. Felix, comandante da operação, tentava justificar a ação de seus homens à mídia, Serra posava de dedicado e preocupado na ação anticrise da “sua” mídia, fato que provocou rumores e revolta no interior dos quartéis.

O governador é o maior responsável por toda essa tragédia. Ele deveria estar sentado ao lado do cel Felix, que corajosamene conversava com a mídia. Vejamos:
1. o governo erra ao não dar condições dignas de trabalho para as polícias civil e militar.
2. a polícia é do estado. O comandante supremo, governadpr José Serra, deveria ter averiguado as providências em curso. Ele deveria estar em linha direta, acompanhando passo a passo aquela ação que se tornara espetáculo por ação da mídia “oficial”.
3. A operação foi mal conduzida durante todo o tempo, decorrente do despreparo dos policiais, ocorrendo até mesmo infrações ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
4. O rapaz, ao sentir-se acuado no ato da invasão da PM ao apartamento, teve chance de atirar duas vezes em Eloá. Um atendimento especializado psicológico especializado (não se trata apenas de diploma em psicologia, mas ainda de especialização) poderia ter orientado tudo com profissionalismo.

A mídia sabe de tudo isso, mas não é a solução o que interessa. Carrara em seu artigo lembra ainda (e recomenda a quem não conhece) o maravilhoso filme de Billy Wilder, um clássico, pioneiro na crítica à espetacularização da mídia: A Montanha dos Sete Abutres. A história se passa em uma cidadezinha do interior, nos EUA. Um jornalista decadente vê no drama de um mineiro parcialmente soterrado, uma chance de ganhar dinheiro e fama. Ele constrói uma aparência de estar ali para ajudar, mobilizar salvamento, mas por trás tenta prolongar ao máximo o salvamento, iludindo o mineiro e sua família. O mineiro não resiste e morre.

A mídia agora prolonga o espetáculo a chamar os velhos especialistas de sempre. Para explicar a trajetória dos tiros, a saber se houve um tiro antes da invasão (sabe que não houve), saber se o garoto deveria ter sido assassinado antes de matar a sequestrada, saber se houve falhas na operação. Agem assim porque acreditam que seus leitores e espectadores são desprovidos de crítica.

A mídia não critica a mídia, que não critica Serra, que prioriza sua imagem a todo custo. O governador, que em nenhum momento foi em busca de profissionais especializados, pouco se importando com a vida daquelas crianças; que paga mal a polícia civil e militar e que trata com autoritarismo suas reivindicações. É o mesmo que corre a posar para os flashs pisando no cadáver da menina assassinada, com ar consternado. É o mesmo que corre a expor os policiais sob seu comando à execração pública.

Há muitos erros e muitas vítimas. E um culpado maior: o Governo do Estado de São Paulo.



4 comentários:

Anônimo disse...

Caro Jorge Nogueira Rebollado

Não publicarei seu comentário.
Não pelo doentio serrismo, mas pelo conteudo ofensivo.

Bom passeio.

Leila Jinkings

Anônimo disse...

A cobertura feita pela Rede Record, RedeTV! e Rede Globo prejudicou as negociações com Lindemberg Alves, na avaliação do ex-comandante do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) e sociólogo Rodrigo Pimentel. Para ele, a postura das emissoras foi "irresponsável e criminosa".

Por Diego Salmen, no Terra Magazine

Como o senhor escreveu em artigo na Folha de S.Paulo, a responsabilidade está na medida em que há falta de investimentos, como por exemplo a falta de câmeras...
Nenhuma unidade tática no Brasil dispõe desse equipamento. São equipamentos baratíssimos, custam menos que uma viatura policial. E são muito necessários. Se o Gate (Grupo de Operações Táticas Especiais) tivesse esse equipamento, não teria feito a opção pela invasão. Porque ia perceber que a porta tinha obstáculos. E aqueles 14 segundos que a equipe policial perdeu na porta foi o tempo para acontecer a tragédia, foi o tempo que o Lindemberg precisou para alvejar as meninas.
http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=45290

olicruz disse...

Acho a tua avaliação pertinente. Caso o episódio tivesse ocorrido em outro estado - no Pará da governadora Ana Júlia, por exemplo - a imprensa teria acusado imediatamente a chefe da PM. Mas também não há que se desconsiderar o papel da imprensa, principalmente a televisiva. Foi irresponsável, para dizer o mínimo. Mas, mais uma vez, ninguém parece muito levado a fazer o velho exercício da auto-crítica.

Pedro Ayres disse...

Leila

Fora o terrível incompetência profissional da PM de SP e do arrivismo do Serra, os maiores responsáveis estão na mídia. Depois que a mídia perdeu a capacidade de avaliar eticamente o próprio trabalho, a notícia e a informação passaram a ter a dimensão dos "15 minutos" do Andy Wahrol. O resultado é essa enxurrada de grosseiros erros e ausência de visão crítica ou autocrítica. Enquanto continuarmos a ver os fatos pela ótica do espetáculo e pela fama, os erros serão contínuos e a qualidade informativa cada vez mais baixa. Esperemos que com o fim do "pensamento único do Consenso de Washington" ainda se possa ver uma mídia de qualidade.

BRASIL NUNCA MAIS

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