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quarta-feira, 16 de junho de 2010

O Fascismo na Colômbia

Em meio da grande depressão econômica mundial dos anos 30 do século passado, surge o fascismo alemã, monstruoso engendro do capitalismo, que os dirigentes revolucionários e a intelectualidade mais esclarecida de aquela época definiram como "A ditadura terrorista aberta dos elementos mais reacionários, mais chauvinistas e mais imperialistas do capital financeiro", "a organização do ajuste terrorista de contas com a classe operária e o setor revolucionário dos camponeses e dos intelectuais".

Era a ditadura do setor mais reacionário da oligarquia financeira que conformava a elite monopolista da nação. Esse reduzido grupo encontrou em Adolfo Hitler o instrumento adequado para tratar de impor seu projeto de sociedade, obediente da disciplina social e trabalhista do capital corporativo, primeiro em Alemanha, depois, por meio da guerra, ao resto do mundo.

Para alcançar seus propósitos, os capitalistas alemães aproveitaram o ressentimento do povo germano frente às duras sanções do Tratado de Versallhes, imposto ao país pelos vencedores da primeira guerra mundial (1914 - 1918).

Os fascistas recorreram ao mais iracundo e cru nacionalismo. Proclamaram a superioridade da raça ária sobre as demais raças existentes, a necessidade de um "espaço vital" para Alemanha que lhe permitisse a recuperação de territórios e colônias de ultramar perdidas na primeira guerra mundial, prometeriam o melhor-estar geral e um império que duraria mil anos (O terceiro Reich), como recompensa à grandeza e glória alemãs que dominariam o mundo.

Mediante uma hábil e enganosa propaganda, fazendo uso da mentira e da falsificação dos fatos como seu principal instrumento, o Partido Nacional Socialista Alemã logrou o apoio não só do grande capital mas da mediana e pequena burguesia, de importantes setores de operários, camponeses, estudantes, jovens e populares para apoderar-se do poder em 1933.

"Uma mentira repetida mil vezes, termina convertendo-se em verdade" e "Calunia e calunia, que da calunia algo fica", foi a divisa que utilizou Goebbels, como chefe de propaganda de Hitler e que importou para Colômbia e repetia em seus discursos, um célebre expoente da ultradireita nacional que para a época oficiava como embaixador em Berlim: Laureano Gómez.

As potências capitalistas ocidentais viam em Hitler a pessoa indicada para atacar e destruir a Revolução Bolchevique que se desenvolvia dentro da antiga Rússia, onde o Estado de Operários, Camponeses e Soldados, tinha terminado com a exploração do czarismo e da aristocracia, e seu exemplo estendia-se sobre toda a face da terra ameaçando o império burguês.

A perfídia e o cálculo da reação mundial, que estimulavam o anti-comunismo de Hitler e a guerra contra o nascente Poder Operário com a secreta esperança de que o fascismo esmagara a revolução, haveriam de pagar-la muito caro os povos das diversas nações de Europa, Ásia, África e América Latina.

Finalmente, o Fascismo foi derrotado, mas nenhuma nação ou povo carregou com maior responsabilidade, nem aportou semelhante cota de sangue e sacrifício como o fez a União de Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), fator fundamental para a derrota do fascismo da Alemanha nazi.

Dos 52 milhões de mortos reportados oficialmente que ocasionou a Segunda Guerra Mundial, 27 milhões foram da União Soviética, dos quais 20 milhões eram população civil. Dos 70 milhões de feridos, 40 milhões eram soviéticos, 140 mil povoados e cidades foram destruídas, o 70% da economia dessa nação ficou totalmente devastada, milhões de viúvas e órfãos, epidemias, enfermidades e fome sem precedentes, sufriou a Pátria de Lenin.

Glória eterna a seus heróis e mártires deve-lhe a humanidade, ao primeiro país socialista do mundo, já que eles salvaram-la do extermínio em massa nos campos de concentração, ou da escravidão perpetua que pretendeu implantar o brutal imperialismo alemã no seu delírio pela dominação mundial.

Vencida Alemanha e seus aliados, o mundo e seu mesmo povo puderam conhecer a verdade sobre o horror praticado pelos fascistas: o aniquilamento nas câmaras de gás de milhões de judeus, ciganos, minorias étnicas, opositores políticos, portadores de necessidades especiais que a propaganda oficial negava sistemáticamente, ao igual que a existência de criminosos experimentos com seres humanos tomados como cobaias nos laboratórios, para provar as drogas que permitissem apoderar-se da vontade alheia, ou gases e químicos que servissem para seus fins de manipulação e extermínio.

Com certeza o nazismo foi derrotado e seus sonhos imperiais desapareceram, mas Europa inteira ficou convertida em um imenso cemitério e em um gigantesco campo de ruínas e de escombros.

Em lugares onde antes floresceram prósperas cidades ficaram as cinzas, só. No entanto, a ideologia e a prática do fascismo não desapareceram, mas assumiram novas formas nascidas da Doutrina da Segurança Nacional, uma concepção fascista do Estado, que considera o povo como "inimigo interno" a derrotar, já não, no marco de uma guerra mundial mas no cenário de cada país por separado.

A atual crise econômica que açoita o mundo e a chamada guerra contra "terrorismo", promovidas pelo governo de George W. Bush, assim como os contínuos massacres contra o povo palestino implementadas pelo Estado Sionista de Israel, nos lembram que o fascismo está vivo.

Em nossa América as ditaduras militares com Pinochet à cabeça, Stroessner, Videla, Pacheco Areco, Somoza e Fujimori entre outros, foram expoentes desse depravado sistema.

Na Colômbia, Álvaro Uribe Vélez com a promocionada "segurança democrática" e o chamado por ele "Estado Comunitário" tem remoçado a forma fascista de dominação em um país atrasado e dependente.

Uribe é o genuíno representante do capital monopolista financeiro - industrial crioulo, ligado às transnacionais, os grandes latifundiários, traficantes de drogas e outras máfias que têm usurpado todas as estruturas do Estado para colocar-las a serviço dos mesquinhos interesses de classe, desse reduzido grupo de bilionários, em contra dos interesses da maioria dos colombianos afundados cada vez mais na pobreza.

Tal como ocorria na Alemanha fascista, na Colômbia o povo está sendo exterminado, não com o silencioso gás envenenado, mas com o sórdido ruído das motoserras que despedaçam a vítima e aterrorizam a milhões de cidadãos. Os escuartejados são levados para covas comuns lotadas de cadáveres ainda sem identificar e como ocorria na Alemanha, aqui também o sinistro braço paramilitar que implementou o Estado para cometer seus crimes, utiliza fornos crematórios para não deixar vestígio algum para evitar que aumentem as estatísticas de mortos, desaparecidos, etc. e assim poder seguir enganando o mundo e ocultando aos colombianos a realidade nacional.

Por isso e para falsear a realidade, na Colômbia, os modernos Goebbels do regime, os José Obdulios, denominam "falsos positivos" os milhares de assassinatos cometidos por suas forças de segurança, por sua Gestapo, e lhe dão tratamento de "casos isolados"a aquilo que é em realidade uma política Estatal, pois obedece à conduta permanente do exército, da polícia e dos demais organismos punitivos do Estado.

Ao igual que a Gestapo e as SS, a polícia secreta alemã, o Departamento Administrativo de Segurança (DAS), conduzido e controlado diretamente pelo presidente Álvaro Uribe, organizou uma rede de mais de três milhões de informantes, para que espiem e acusem seus compatriotas a troca de miseráveis recompensas, grava as conversações das Altas Cortes de Justiça, de intelectuais e de jornalistas, realiza seguimentos e junto a alguns integrantes da Promotoria "montam" falsos processos contra seus opositores políticos, ou contra aqueles que criticam os desaforos del poder.

Similar a aquilo que faziam os "Camisas Pardas" na Alemanha hitleriana, as hordas Uribistas lincham moralmente ou assassinam os opositores ao regime.

Igual que na Alemanha do fascismo, na Colômbia, o governo nacional em aliança com os proprietários dos grandes meios de comunicação, convertidos hoje em verdadeiros departamentos para a propaganda oficial do regime, desinformam e mantém enganado o povo colombiano ocultando sistemáticamente as verdadeiras causas e a responsabilidade oficial e do Estado, em centenas de massacres, assassinatos seletivos, torturas, deslocamentos e desaparição forçada de pessoas, encarceramentos massivos de opositores, operações abertas e encobertas nos países vizinhos e assassinatos indiscriminados de humildes colombianos que são reportados como guerrilheiros mortos em combate.

A corrupção reinante que já toca até a mesma família presidencial, também é silenciada, ou maquilada, a simulação de atentados contra o Presidente, seus Ministros e o Promotor Geral da Nação, são tomados como pretextos para incrementar as medidas repressivas; todos os crimes e horrores que comete o "fascismo ordinário" do século XXI que se instalou na Colômbia desde a chegada ao poder de Álvaro Uribe Vélez e que pretende perpetuar-se através do fraude e da reeleção.

Colombia não é Alemanha, nem a economia colombiana pode se comparar com a do país européio dos anos trinta. E nosso povo encontra-se altivo e em plena batalha por derrotar o atual regime fascista, utilizando para isso todas as formas de luta organizada das massas até alcançar dito objetivo.

Tal como foi feito pelos aliados há 64 anos, em 9 de maio de 1945, quando derrotaram Hitler e sua horda de generais assassinos, o povo colombiano saberá encontrar os caminhos de unidade que possibilitem derrotar inexoravelmente os fascistas do século XXI que enlamam a dignidade da Pátria.

Temos jurado vencer e venceremos!

Estado Maior Central,  FARC - EP.

Montanhas da Colômbia, 31 de maio de 2009
  

PAZ NA COLÔMBIA

As FARCs: fator imprescindível à Paz
Hugo Gómez

Nenhuma plataforma política apresentada na farsa eleitoral que se deu em 30 de maio contemplou a abertura de negociações de paz com a insurgência. A interlocutora chave do chamado conflito armado não é mais que a expressão pura e dura da luta de classes, da confrontação antagônica, no terreno militar, entre o povo e a oligarquia. Isso ocorre porque as vias de solução dos problemas sociais e econômicos da classe trabalhadora, do campesinato e demais setores sociais não podem ser abordadas e resolvidas democraticamente pela via política, já que as instituições oligárquicas recriam e se apóiam na constituição burguesa colombiana.
 
Todos os candidatos à presidência da República Colombiana apostam na estratégia da derrota das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC-EP).
 
As classes dominantes na Colômbia são caracterizadas por sua visão subjetiva, descolada e deformada da realidade nacional, que não as permite ver mais além de seus próprios interesses de classe. Sua condição humana corrompida, cínica e cruel, criminosa em suma, que tem sido demonstrada ao longo da tempestuosa história da Colômbia, a torna incapaz de perceber a incomensurável dimensão do sofrimento e dano irreparáveis causados pelas prisões, desaparecimentos, torturas, assassinatos de dirigentes populares, além dos massacres de populações inteiras.
 
Seu apetite desenfreado de enriquecer e seu ódio visceral do povo digno e trabalhador (que a censuram, ameaçando seu poder e prometendo privá-las de sua liberdade de explorar os trabalhadores e espoliar a nação), leva a consciência de classe ao paroxismo, privando-as de inteligência e lucidez para reconhecer, autocriticamente, sua grave responsabilidade nos atos genocidas. Essa privação também impede a abertura de canais legítimos que levem a uma paz real, pondo um fim definitivo a esse terrível período de morte e tragédia na Colômbia, em que os dominantes vêm sendo progenitores e condutores dessa barbárie.
 
Sua demente prepotência prega, antecipadamente, a derrota de seu inimigo, supervalorizando a força e a capacidade de extermínio de seus devastadores aparatos de guerra. Ao mesmo tempo, desvalorizam, equivocadamente, a capacidade e resistência militar daqueles que se armam. Portanto, parece que não podem atender e nem entender o enorme peso político da insurgência armada, que vem recebendo apoio e adesão da população colombiana, tanto no interior do país como no exterior, sendo reconhecida por destacadas personalidades e instituições livres de qualquer suspeita.
 
Ao mesmo tempo, vem sendo revelada à Colômbia e ao mundo inteiro a responsabilidade do governo de Uribe Vélez e de seu exército carniceiro na preparação e consumação de horrendos crimes de lesa humanidade já inocultáveis, perpetrados por grupos paramilitares; brotam na superfície a podridão dos crimes e corrupções dos "homens de Uribe", entranhados no governo, no Parlamento e nos órgãos da Inteligência, assim como dos grupos econômicos e oligárquicos ligados ao poder e à sua política de repressão e extermínio; se faz, cada vez mais patente, o real empobrecimento e até a mais absoluta falta de proteção social e miséria da maioria do povo colombiano.
 
Ou seja, vão caindo, uma a uma, as mentiras de crimes atrozes atribuídos à Insurgência, impulsionados pelo estabelecimento de ações narcoparamilitares colombianas através de campanhas de desprestígio e ódio às forças armadas populares, na busca para
 
justificar sua guerra de extermínio...
 
A oligarquia colombiana possui muito mais medo da paz que vontade de alcançá-la, principalmente se a paz solicitada pelo povo é com justiça social. A paz significa o fim de sua orgia de crimes e latrocínio, a perda de seu poder absoluto impune sobre a vida, os bens e a liberdade dos cidadãos indefesos, o fim de seus negócios com as transnacionais dos Estados imperialistas e a abertura do "julgamento universal", que os fará sentar no banco dos Tribunais pelas tumbas cavadas e os rios de sangue, que assolam toda a geografia da Colômbia. Ouça, Uribe!
 
No recente editorial da "Voz", órgão do PC colombiano, da semana de 5 a 11 de maio de 2010, Carlos Lozano expressava que "a paz negociada implica mudanças na sociedade: construir um novo país sobre bases sólidas, democráticas e de justiça social. É necessário fazer um pacto com os insurgentes e a sociedade colombiana, que deve ser parte ativa nos diálogos. Esse é o vazio existente na recente proposta da Igreja Católica, interessante, porém insuficiente".
 
O diretor do órgão comunista "Voz" reclama, com razão, que a insurgência seja "parte ativa" nos diálogos de paz. Essa busca histórica da paz está cheia de episódios em que é patente o protagonismo da insurgência, concretamente as FARC-EP, com assento próprio, indiscutível.
 
Em algumas declarações feitas ao jornalista Pablo Biffi, do jornal Clarín, em 16 de setembro de 1998, reproduzidas por Fidel Castro em seu livro "A paz na Colômbia", o inesquecível Manuel Marulanda dizia que "conforme a experiência acumulada ao longo de 40 anos de luta para resolver os problemas sociais deste país, é necessária a presença das FARC. Nós faremos um acordo em algum momento, porém, nossa armas têm que ser a garantia de que será cumprido o acordado. No momento em que desaparecerem as armas, o acordo pode ser derrubado. Essa é uma questão estratégica que não vamos discutir".
 
Nas vésperas das Conversações de Caguán, narra Fidel no texto citado, Raúl Reyes, então responsável pelas Relações Internacionais das FARC, durante sua estada em Cuba, transmitia aos companheiros do Setor de América do Partido Comunista Cubano, que "estão conscientes que este será o começo de um longo caminho que somente eles devem percorrer com os governantes de seu país. Sem dúvida, expressam que nunca aceitarão a desmobilização e a entrega das armas, mesmo que não alcancem os objetivos pelos quais vêm lutando".
 
Já ativada a Mesa de Caguán, encaminhada a busca de soluções políticas ao conflito armado, em referência à intermediação de outros países na construção da paz, Manuel Marulanda, reunido em seu acampamento com personalidades revolucionárias da América Latina, do Secretariado das FARC-EP e o emissário do Partido Comunista de Cuba, José Arbisú, avaliou como importante "o acompanhamento internacional que se faz neste processo, porém não quer cair na armadilha ocorrida em El Salvador e Guatemala". Pensa que muitas personalidades podem ajudar, desde que não parcialmente.

Mensagem aos navegantes da paz:

1º) Na solução política da guerra e promoção dos acordos de paz, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC-EP) são fator imprescindível na pacificação e refundação política e institucional da Nova Colômbia e, ao mesmo tempo, garantia de primeira ordem do cumprimento dos acordos firmados.

2º) É fundamental à nova abertura do diálogo ou conversações de paz o seu reconhecimento como Força Beligerante, reclamada insistentemente pelas FARC-EP. Essa é uma condição sustentada com base nos princípios e normas do direito internacional.
 
Todo o peso da opinião pública colombiana e mundial deve se voltar para a consecução de tal objetivo e na exigência de sua exclusão da abominável lista de organizações "terroristas". É dessa maneira como a oligarquia colombiana e o imperialismo norte-americano e europeu estigmatizam, com prepotência e sem nenhuma legitimidade, o direito dos povos à rebelião armada.
 
jun/2010
Agência Bolivariana de Notícias (ABP)

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Idéias, flores e armas


Todas as Armas - reflexões sobre um movimento
Leila Jinkings

O maio de 1968 é um símbolo e o apogeu dos movimentos políticos e comportamentais. Além das barricadas, a imagem que vem a mente são as cores e os sons psicodélicos do movimento hippie e do Tropicalismo.


O movimento hippie desperta reações diversas e apaixonadas. Uns rotulam de "um bando de porras-loucas, drogados e vagabundos", outros, de que "era só sexo, drogas e rock and roll" e, ainda, "um movimento de burguesinhos", "alienados", e por aí vai. Muitos o compreendem como a utopia de romper as estruturas da sociedade por meio da prática de ações libertárias. Não costuma ser prudente definir com rigidez movimentos dessa amplitude. A dinâmica da história ensina que o movimento social surge, geralmente, de um acúmulo de fatores que tem sua catarse em dado momento. O epicentro do movimento foi, sem dúvida, nos EUA, a reação à guerra contra o tão minúsculo quanto bravo povo vietnamita.


O movimento hippie não pregava apenas a paz e o amor. Ingênuo ou não, eles queriam o bicho homem mais importante que tudo. Queriam a sociedade voltada para o bem estar da humanidade. Pregavam a liberdade de dispor do próprio corpo, de viver e de amar como quiser. "Make Love. Not War". Mas o cerne do movimento era contra a sociedade do consumo.


No mundo todo, a juventude começava a reagir ao conservadorismo e à repressão sexual. Focos pelo mundo, foi nos EUA onde se percebeu a cristalina explosão daquela ruptura de valores. Após a Segunda Guerra Mundial, ainda durante o nefasto macartismo, surgiu o movimento que ficou conhecido como beatnik, liderado por poetas e estudantes. A geração beatnik abria a cabeça para conhecer a cultura negra, a cultura nativa dos índios, além da cultura oriental. Conheceram aí filosofias e religiões, além da música indiana, que passaram a influenciar a criação artística. O termo hippy é derivado de "hipster", usado para designar os brancos que se envolviam com a cultura negra e a índigena. A contracultura cria corpo com o combate à política externa de dominação estadunidense.


Tinha início, nos EUA, uma onda de protestos contra a guerra do Vietnã. No Brasil, contra a ditadura. A repercussão dessa guerra era mundial, assimilada de acordo com as conjunturas locais. No Brasil, a guerra repercutia na resistência contra a ditadura, que era apoiada e orientada pelo mesmo agressor. O pensamento de Ho Chi Min tinha grande aceitação por representar um povo heróico que resistia à ocupação do gigante.


A fotografia e a televisão levam as notícias da guerra e promovem um grande impacto no mundo. Nos EUA, além do conservadorismo, havia quem apoiasse a guerra, enganados pela propaganda. Mas não o meio intelectual e estudantil, que repudiava firmemente a política externa de Washington. Após as primeiras manifestações, intramuros universitários, os protestos tomaram as ruas. Percebendo o poder da comunicação de massa, exigiam liberdade de expressão, questão já abordada desde 1964, quando ocorreu o "Free Speech Movement" (Movimento pela Liberdade de Expressão).


A luta contra a guerra une a juventude do mundo. “Mas quem tomou as grandes decisões em 1968? Os movimentos mais característicos do 68 idealizaram a espontaneidade e se opuseram à liderança, estruturação e estratégia”, disse Eric Hobsbawn. Havia uma nova maneira de pensar e de agir. Inovou-se em tudo. As manifestações, sob a vista da TV, eram muito visuais, com slogans, cartazes coloridos, faixas e muita pichação. Se o carro chefe dos protestos nos EUA era a invasão ao Vietnã, na França era o autoritarismo e na América Latina a luta contra a ditadura.


Uma parcela da juventude estadunidense passa a manifestar-se de uma forma diferente: tentavam traduzir seus anseios - de acabar com a guerra e com o consumismo da sociedade capitalista - pregando um estilo de vida alternativo. Eles eram contra a guerra e defendiam que se precisava mudar a sociedade. Questionavam a autoridade, a hipocrisia da moral burguesa e a ganância. Criticavam os meios de comunicação de massa e a economia de mercado. Repudiavam a repressão sexual cristã e, para defender a liberdade sexual, praticavam o amor livre ostensivamente. Vestiam-se com roupas coloridas e artesanais. As roupas usadas, compradas nos bazares, recebiam bordados, bótons, retalhos, incluindo brincadeiras com roupas formais como o paletó.


Usavam flores, colares, pulseiras, tudo muito colorido como a celebrar a vida. A busca por novas culturas trouxe-lhes conscientização sobre os benefícios do uso de produtos naturais e o amor à natureza. Passaram a viver em comunidades rurais, onde consumiam o que plantavam. A maconha substituiu as drogas da sociedade de consumo, o álcool e o cigarro. O trabalho era coletivo. Educavam os filhos coletivamente. Tudo era dividido e respeitado pela comunidade. Para a sobrevivência, fabricavam peças artesanais, que eram vendidas juntamente com o que plantavam. Era a sua utopia de sociedade igualitária.


Em contraponto à convocação para a guerra, os hippies pregavam a desobediência civil e deixavam os cabelos crescerem. Nas drogas, procuravam a abertura da mente a novas percepções, a elevação do espírito, a meditação e a criatividade. Além da "marijuana", adotaram o uso do LSD, que já vinha sendo difundido nas universidades. Usavam também o "cogumelo mágico", encontrado em fazendas onde se cria gado e que contém substâncias alucinógenas.


A música, principalmente o rock, foi a maior expressão artística desse movimento, cujos expoentes, com letras inteligentes e de conteúdo contestador, são Bob Dylan, Joan Baez, Janes Joplin, Jimi Hendrix e Joe Cocker. A música "Blowin in the Wind", de Dylan tornou-se quase um hino. O festival de Woodstock - Festival de Música e Artes de Woodstock, em uma fazenda nos arredores de Nova Iorque, foi o momento mais marcante do movimento, com três dias de musica e quase 500 mil pessoas presentes. Foram três dias de paz, amor e musica, com liberdade sexual, liberdade para usar drogas livremente e um espírito de comunidade que garantiu a ordem - nenhum registro de violência ou roubo -, deixando à policia apenas o controle do trânsito caótico.


A sociedade capitalista, como de hábito, absorveu oportunisticamente o movimento contestatório e, desvirtuando o estilo de vida, transformou-o em mais uma mercadoria a consumir. A moda hippie passou a ser exposta em vitrines e a indústria cultural explorou ao máximo a arte e a música produzidas. Decepcionados, os autênticos praticantes passaram a evitar a superexposição. Por outro lado, o preconceito da classe média, por toda parte, marginalizava aqueles que aderiam à filosofia hippie. Os "ripis", estendendo-se aos artesãos, passaram a ser sinônimo de vagabundos, desocupados e maconheiros.


O legado desse movimento, porém, é significativo: foram eles que introduziram a preocupação com o meio ambiente e com a natureza e introduziram os alimentos naturais. Questionaram a convenção do casamento e pregaram a revolução sexual e a igualdade, reflexões que repercutiram com importância nas décadas que seguiram. Introduziram, também, a ioga, a meditação, as culturas ocidentais e primitivas, a literatura esotérica, ampliando as reflexões filosóficas em contraponto ao catolicismo dominante. Exibiram ao mundo que "outro mundo é possível". O seu espírito de experimentação e as suas inquietações colocaram em cheque a cultura de massa, influenciando positivamente a juventude.


Aqui no Brasil, enquanto isso, o movimento que culminou com o Tropicalismo, guarda uma significativa identidade com o hippie: o psicodelismo, a busca de inovações, a rebeldia e a quebra de tabus, entre outros. O regime ditatorial, implantado com o golpe militar de 1964, provocou uma necessidade de expressão cultural que se refletia nas artes. A música de protesto, as artes gráficas, o teatro e o cinema tiveram intensa produção nesse período. Os Mutantes à frente, junto com Rogério Duprat, Tom Zé, Gilberto Gil e Caetano Veloso, revolucionaram a música e a poesia. Eles também buscaram se diferenciar no comportamento social, na vestimenta e na busca de culturas esotéricas.


Mais à frente, Raul Seixas funda a Sociedade Alternativa, com influência esotérica e da cultura hippie, fortemente libertário. "Faz o que tu queres, pois é tudo da lei".


Na política, não foram vitoriosos, nem os que lutaram com as flores e nem os que pegaram nas armas. Do que foi plantado, no entanto, muitas sementes germinaram. As liberdades democráticas, a participação da mulher, a igualdade racial, a supremacia intelectual sobre as trevas da repressão comportamental são frutos que abriram caminhos.

BRASIL NUNCA MAIS

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