terça-feira, 17 de abril de 2012

Justiça pode julgar 1.500 repressores da era Pinochet

 A Corte de Apelações de Santiago recebeu, na tarde desta segunda-feira (09), um processo que pode levar a julgamento mais de 1.500 pessoas acusadas de colaborar com o principal órgão de repressão da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), a antiga Dina (Direção Nacional de Informações).

Memorial exibe fotos das vítimas da Villa Grimaldi, um dos prinicipais
centros de tortura do Chile/ Foto: Razi Sol/Wikicommons

A ação movida pela AFDD (Agrupação de Familiares de Detidos Desaparecidos) e pelo Partido Comunista do Chile está baseada em um ofício emitido em agosto de 2008 pelo ministro Alejandro Solís, da mesma Corte de Apelações, quando investigava documentos oficiais do exército chileno referentes às atividades praticadas pela Dina em Villa Grimaldi e outros antigos centros de tortura identificados na capital chilena. O próprio Sólis compareceu ao tribunal para acompanhar a entrega do processo.

Entre os 1.500 ex-agentes e colaboradores da Dina que foram indiciados estão o filho mais velho do ditador, Augusto Pinochet Hiriart, o deputado Rosauro Martínez (do partido Renovación Nacional, o mesmo do presidente Sebastián Piñera), Jaime García Covarrubia, assessor do Instituto de Defesa Hemisférica dos Estados Unidos, e o prefeito de Providência, Cristián Labbé, que foi guarda-costas pessoal de Pinochet durante a ditadura – Labbé foi quem organizou, em novembro de 2011, a polêmica homenagem ao brigadeiro Miguel Krassnoff, chefe da Dina.

“A sociedade chilena pede há anos para receber justiça por inteiro e não pela metade, não se pode tolerar mais que essas pessoas que ontem foram torturadores e assassinos hoje sejam prefeitos ou deputados, ou professores de universidade, como se não tivesse acontecido nada”, disse Lorena Pizarro, presidente da AFDD, que compareceu à Corte de Apelações nesta segunda-feira (09), para protocolar o processo, acompanhada de Hugo Gutiérrez, reconhecido advogado em causas de Direitos Humanos.

O processo também repercutiu na sede da UDI (União Democrática Independente), partido ultraconservador que abriga muitos ex-colaboradores da ditadura – entre eles, Cristián Labbé. O presidente da legenda, Patricio Melero, leu uma declaração a respeito, focada principalmente na participação do Partido Comunista entre os envolvidos na ação. “Os comunistas carecem de autoridade moral para falar em direitos humanos no Chile e no mundo inteiro. A FPMR (Frente Patriótico Manuel Rodríguez), que era o braço armado deles, cometeu terríveis atrocidades, das quais eles hoje preferem não se responsabilizar”, afirmou Melero.

O deputado comunista Hugo Gutiérrez não quis comentar as declarações de Melero, mas afirmou que o processo marca um precedente muito importante, pois seria “a primeira vez no Chile que se atua também contra um antigo organismo de Estado, acusando-o de associação ilícita. Até então somente se havia processos contra indivíduos ou grupos, sem responsabilizar os departamentos estatais dos quais eles faziam parte”.

O deputado, que fatuou como advogado em causas de direitos humanos, como o Caso Caravana da Morte (relativa ao grupo de extermínio criado pela ditadura para perseguir e assassinar líderes regionais do governo de Allende nas províncias distantes da capital Santiago), acredita que a repercussão deste novo caso poderia despertar maiores anseios por mudanças no país. “Vimos no ano passado, durante as marchas pela educação estudantis, que não só os estudantes, toda a sociedade chilena quer o fim da Constituição da ditadura (1980), vigente até hoje, e está ação vai por esse mesmo caminho, o de ter que lidar com os últimos vestígios daquele regime”, comentou.

Relatório contra Labbé

No final da tarde desta terça-feira (10), a Controladoria Geral da República tornou público um relatório no qual define que o prefeito de Providencia, Cristián Labbé excedeu suas faculdades administrativas ao realizar, em um edifício pertencente à Prefeitura, uma homenagem ao brigadeiro Miguel Krassnoff, primeiro chefe da Dina, que cumpre sentença de 144 anos de prisão por crimes contra os direitos humanos.

A homenagem aconteceu em 21 de novembro de 2011 no Clube Providencia, onde as manifestações realizadas do lado de fora, por familiares de vítimas de Krassnoff terminaram com violentos confrontos com as forças policiais.

A respeito do relatório, o próprio Labbé considerou que "o mais importante é que não há nenhuma medida contra mim, e nenhuma sanção, a Controladoria por ter sua opinião, eu respeito, mas é só uma opinião". Já o deputado Hugo Gutiérrez ressaltou que "a Controladoria não tem poder de sentenciar ninguém, ela somente analisa os casos, este relatório poderia gerar um processo no futuro, mas isso precisa ser avaliado".

Fonte: Ópera Mundi


Chile: Justiça pode julgar 1.500 repressores da era Pinochet - Portal Vermelho

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Por que a Veja é contra a CPMI do Cachoeira?

Deputado Marco Maia (PT-RS), presidente da Câmara dos Deputados (Foto: Arquivo/PT)





PRESIDENTE DA CÂMARA RESPONDE MATÉRIA PUBLICADA NA REVISTA VEJA. LEIA A ÍNTEGRA

Tendo em vista a publicação, na edição desta semana, de mais uma matéria opinativa por parte da revista Veja do Grupo Abril, desferindo um novo ataque desrespeitoso e grosseiro contra minha pessoa, sinto-me no dever de prestar os esclarecimentos a seguir em respeito aos cidadãos brasileiros, em especial aos leitores da referida revista e aos meus eleitores:

- a decisão de instalação de uma CPMI, reunindo Senado e Câmara Federal, resultou do entendimento quase unânime por parte do conjunto de partidos políticos com representação no Congresso Nacional sobre a necessidade de investigar as denúncias que se tornaram públicas, envolvendo as relações entre o contraventor conhecido como Carlinhos Cachoeira com integrantes dos setores público e privado, entre eles a imprensa;

- não é verdadeira, portanto, a tese que a referida matéria tenta construir (de forma arrogante e totalitária) de que esta CPMI seja um ato que vise tão somente confundir a opinião pública no momento em que o judiciário prepara-se para julgar as responsabilidades de diversos políticos citados no processo conhecido como “Mensalão”;

- também não é verdadeira a tese, que a revista Veja tenta construir (também de forma totalitária), de que esta CPMI tem como um dos objetivos realizar uma caça a jornalistas que tenham realizado denúncias contra este ou aquele partido ou pessoa. Mas posso assegurar que haverá, sim, investigações sobre as graves denúncias de que o contraventor Carlinhos Cachoeira abastecia jornalistas e veículos de imprensa com informações obtidas a partir de um esquema clandestino de arapongagem;

- vale lembrar que, há pouco tempo, um importante jornal inglês foi obrigado a fechar as portas por denúncias menos graves do que estas. Isto sem falar na defesa que a matéria da Veja faz da cartilha fascista de que os fins justificam os meios ao defender o uso de meios espúrios para alcançar seus objetivos;

- afinal, por que a revista Veja é tão crítica em relação à instalação desta CPMI? Por que a Veja ataca esta CPMI? Por que a Veja, há duas semanas, não publicou uma linha sequer sobre as denúncias que envolviam até então somente o senador Demóstenes Torres, quando todos (destaco “todos”) os demais veículos da imprensa buscavam desvendar as denúncias? Por que não investigar possíveis desvios de conduta da imprensa? Vai mal a Veja!;

- o que mais surpreende é o fato de que, em nenhum momento nas minhas declarações durante a última semana, falei especificamente sobre a revista, apontei envolvidos, ou mesmo emiti juízo de valor sobre o que é certo ou errado no comportamento da imprensa ou de qualquer envolvido no esquema. Ao contrário, apenas afirmei a necessidade de investigar tudo o que diz respeito às relações criminosas apontadas pelas Operações Monte Carlo e Vegas;

- não é a primeira vez que a revista Veja realiza matérias, aparentemente jornalísticas, mas com cunho opinativo, exagerando nos adjetivos a mim, sem sequer, como manda qualquer manual de jornalismo, ouvir as partes, o que não aconteceu em relação à minha pessoa (confesso que não entendo o porquê), demonstrando o emprego de métodos pouco jornalísticos, o que não colabora com a consolidação da democracia que tanto depende do uso responsável da liberdade de imprensa.

Dep. Marco Maia,

Presidente da Câmara dos Deputados

http://brasilmobilizado.blogspot.com.br/2012/04/marco-maia-por-que-veja-e-contra-cpmi.html


domingo, 1 de abril de 2012

Mortes à sombra dos quepes

domingo, 1º de abril de 2012


Mortes à sombra dos quepes - 48 anos do golpe

Carlos Franco
 
Em trechos inéditos de um depoimento histórico, o ex-presidente Ernesto Geisel defende a tortura e confirma que o Exército matou Vladimir Herzog e o operário Manuel Fiel Filho 
Ernesto Geisel não se recusou a tratar de temas cruciais
como os enforcamentos nas prisões em 36 horas
 gravadas pelos historiadores

A poucos dias do anúncio dos nomes da Comissão da Verdade responsáveis por desvelar os segredos guardados nos porões da ditadura militar (1964-1985), um pouco das histórias escondidas pela repressão foi trazido à luz por uma entrevista concedida em 1993 pelo general Ernesto Geisel ao Centro de Documentação e Pesquisa (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas (FGV). Quarto presidente a ocupar o Palácio do Planalto depois do golpe de 31 de março de 1964, o “Alemão” confirmou que o regime à época não só praticava a tortura, como foi o responsável direto pelas mortes do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, e do operário Manuel Fiel Filho, em 1976.

Geisel chegou a confirmar aos historiadores Maria Celina D’Araújo e Celso Castro que, ao contrário da versão oficial difundida à época, Fiel Filho foi, sim, morto por militares: “Num fim de semana, ele (o então comandante do Exército em São Paulo, general Ednardo D’Ávila Mello) não estava em São Paulo e mataram o operário”.
O material recolhido pelos pesquisadores, e que deve ser analisado pela Comissão da Verdade, reúne mais de 36 horas de gravações que traçam um panorama da história recente do país. Parte já foi publicada no livro Dossiê Geisel, mas vários trechos permanecem inéditos — como a confissão do assassinato de Fiel Filho pelo Exército. Maria Celina diz ao Estado de Minas que, mais importante do que os depoimentos dos comandantes militares coletados pela instituição — que encerram um ciclo até porque muitos morreram —, é avançar na reconstituição dos aparelhos de terror do Estado.
“Os militares, inclusive Geisel, defenderam a repressão, mas o regime de terror de Estado teve participação ativa da mídia e de empresários. Essa é a história que falta levantar. Espero que a Comissão da Verdade avance nesse sentido”, pressiona Celina. Geisel, explica ela, tentou driblar e desmantelar a esquerda e a extrema direita durante o seu governo. “Teve êxito no primeiro combate, pois a esquerda se desmantelou, mas a extrema direita se manteve ativa e operante até o atentado no RioCentro, em 30 de abril de 1981, durante o show do 1º de Maio”, esclarece. Faltaria ouvir, portanto, empresários que estão vivos e podem esclarecer o funcionamento das masmorras.
“A sociedade que participou dessa repressão precisa e deve ser ouvida, como ocorreu na Alemanha pós-Hitler e como ocorre hoje na Espanha em relação à ditadura de Franco.” Celina está convencida de que, assim, a história será resgatada e de que a anistia estará em xeque e poderá ser revista. “O governo do general João Baptista Figueiredo foi o governo dos órgãos de inteligência e o texto da Lei de Anistia levou em conta essa realidade. ”A historiadora não vê esse resgate da memória como sinal de revanche, mas como dever de Estado, em nome da verdade histórica.

sexta-feira, 30 de março de 2012

NÃO EM MEU NOME

EM NOME DE QUEM, ESTA MILICADA REPRIME MANIFESTAÇÕES? EM NOME DE QUEM ESSA VIOLÊNCIA ESTA TRUCULÊNCIA HERDADA DA DITADURA?

Na tarde desta quinta-feira, manifestantes protestaram do lado de fora do Clube Militar, no centro do Rio, onde acontecia uma comemoração pelo aniversário do golpe de 1964. A polícia militar, como de costume, fez farta distribuição de gás lacrimogêneo, spray de pimenta e muita truculência. Ex-militares como o tenente-coronel Lício Maciel, que participou de operações no Araguaia, e o general Nilton Cerqueira, responsável pela execução de Carlos Lamarca, foram escorraçados pelos manifestantes. (Latuff)

Thor e Serra

Gosto dos textos de Paulo Nogueira. Este eu quero compartilhar. Observem a reflexão que ele provoca ou procura provocar sobre um assunto banal, que lemos nos jornais ou vemos ou ouvimos em outros veículos. Devemos nos orgulhar por termos um aspirante a homem mais rico do mundo no Brasil?
Ele fala de Eike, aproveitando o momento em que ele está em evidência por motivos outros do que os negócios: seu filho Thor, com um carro de 3milhões de dólares, atropelou um ciclista.
Recomendo a leitura


Quando Serra e Thor se encontraram

30 março 2012
Paulo Nogueira


Enquanto isso Eike quer ser o homem mais rico do mundo

Serra e Thor se encontraram nas estatísticas do Diário.

O artigo que escrevi sobre o famigerado atentado de bolinha de papel sofrido por Serra na última campanha presidencial se reproduziu pela internet e logo se tornou o campeão de leitura do Diário.
A liderança está prestes a ser ultrapassada agora pelo texto que escrevi sobre o atropelamento cometido por Thor Batista na direção de uma McLaren de quase 3 milhões de reais. Apenas no Facebook, mais de 3 300 pessoas clicaram em cima do sinal que diz que gostaram.

O que isso diz?
Sobre Serra, é simples. Os brasileiros estavam e estão cansados de espertezas farisaicas como a de Serra depois de ser atingido pelo nada, ou pelo quase nada. Uma tomografia para gerar malandramente o impossível – simpatia popular por Serra? Ora.
Expedientes como esse são do mesmo calibre da pregação clandestina da mulher de Serra, felizmente captada por um jornalista. Monica Serra disse a pessoas humildes que Dilma era a favor de “matar criancinhas”.

O Brasil está cansado desse tipo de coisa.
Mas.
Mas eis que Serra está aí, uma espécie rara entre políticos no mundo todo, aquela que se alimenta não das vitórias mas das derrotas, não da fartura mas da escassez de votos.
Quanto a Thor, tenho para mim que o texto estourou no Diário menos por ele e mais por seu pai, Eike.
Uma coisa, em particular, me parece absurda em Eike: suas reiteradas declarações de que deseja ser o homem mais rico do mundo. É muita pobreza mental para tanto dinheiro. Nenhum assessor disse a ele que é o tipo de coisa que não deve ser dita, quanto mais gritada?

Num país de tanta desigualdade, num mundo em que somos confrontados o tempo todo com fotos de miseráveis espalhados por todas as partes, a ambição pecuniária de Eike é simplesmente patética.
O Brasil merece ricos de maior musculatura interior.

Thor foi exposto a aquilo desde o berço. Pobre menino rico.

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/?p=7095

quarta-feira, 28 de março de 2012

FNDC reúne com Ministro

FNDC se reúne com ministro das Comunicações

28/03/2012 |

FNDC
Nesta segunda-feira, 26, a coordenação executiva do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) reuniu-se com o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo. O encontro teve como foco o debate sobre o novo Marco Regulatório das Comunicações. 

O FNDC apresentou ao Ministério o balanço político realizado em sua 16ª Plenária, que apontou como pauta central de atuação para o Fórum a luta para que a proposta de um novo arcabouço legal para as comunicações fosse colocada pelo governo para debate público.

Os integrantes do Fórum reafirmaram a Plataforma dos 20 Pontos para uma Comunicação Democrática, entregue ao ministro em 18 de outubro, e cobraram uma interlocução maior do ministério com a sociedade civil, não apenas no processo de construção da consulta, mas também das políticas de comunicação por meio da constituição de uma mesa de diálogo. Embora reconheça o esforço do Ministério das Comunicações em organizar o funcionamento administrativo e desburocratizar o setor, o FNDC entende que questões fundamentais para ampliar a pluralidade e a diversidade das comunicações e garantir a universalização do acesso à banda larga têm ficado ausentes da agenda.

Nesse sentido, o Fórum questionou a opção que vem sendo feita pelo Ministério de promover alterações de modo fragmentado, ao aprovar decretos e portarias que incidem sobre questões administrativas mas não mexem nas desigualdades estruturais do setor. Um exemplo é a portaria que modifica a norma de funcionamento das rádios comunitárias, que acabou limitando ainda mais suas condições de funcionamento. Outro é o decreto que alterou o sistema de licitações das concessões, que poderia ter modificado os critérios das outorgas a fim de fortalecer o sistema público e a diversidade do sistema, mas limitou-se a mudanças pontuais. Além de se configurarem como 'oportunidades perdidas', algumas dessas medidas têm sido tomadas sem processos de consulta pública e diálogo com a sociedade civil. Diante das colocações feitas a este respeito, o ministro Paulo Bernardo já orientou que o FNDC fosse consultado sobre o novo decreto das rádios comunitárias que será publicado pelo ministério.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Um caso Inacabado

Reportagem especial de Míriam Leitão e Claudio Renato sobre o caso Rubens Paiva e as novas informações levantadas

Vale a pena ler a matéria e assistir o vídeo

fotografias: http://oglobo.globo.com/in/4120897-cb0-7a7/FT500A/rubens-familia.jpg http://oglobo.globo.com/pais/fotogaleria-rubens-paiva-4120894

domingo, 18 de março de 2012

A Luta Continua

A luta continua
por Leila Jinkings


"Cada paralelepípedo da velha cidade
essa noite vai se arrepiar
Ao lembrar que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais" [1]

O livro “1968- o ano que não terminou” é uma leitura imprescindível para a compreensão daquele ano que marcou para sempre a vida no mundo. Zuenir Ventura relata os acontecimentos no Brasil, fazendo com que o leitor compreenda a conjuntura, naquele momento, na vida dos brasileiros. Diferente de outros relatos, ele não desce à cozinha, preocupa-se com os fatos mais relevantes para a compreensão de quem lê, com isenção e profissionalismo, sem, contudo, colocar-se fora deles.
Nas passagens iniciais, uma festa de reveillon, há imagens hilárias das loucuras daquele tempo de “É Proibido Proibir”, como a impagável cena de um casal que chega à festa e pede – para começar - dois uísques. Recebe, incrédulo, duas garrafas de legítimo scotch. Assim, segue-se o livro todo: introduzindo o leitor no clima de cada momento que relata, fazendo o leitor sentir-se parte daquilo tudo.
O autor passeia pelos acontecimentos que se desenrolam no mundo, as mudanças que vão se alastrando, o desejo de liberdade, o repúdio ao autoritarismo. Com o foco no Brasil, ele segue introduzindo o leitor no clima de descontração das conversas de boteco ou dos encontros de intelectuais e artistas. Descreve os novos costumes introduzidos, da moda ao comportamento sexual.
Aos poucos o clima vai pesando. Começa-se a perceber a perversidade e a irresponsabilidade das mudanças produzidas no Brasil. Aqui, diferente da Europa ou da América do Norte, vivia-se uma ditadura militar. A extrema direita começava a assumir o controle da ditadura, o que se consolida em uma sexta feira 13 do mês de dezembro daquele ano.
O livro pincela a discussão filosófica e política entre os "reformistas" e os "revolucionários". As lideranças do movimento estudantil, sindical e intelectual, alinhavam-se com uma das posições. Liam Marx, Marcuse, Mao, Ho Chi Min, Althusser, Che Guevara, Debray. As diferenças eram percebidas apenas por quem estava alinhado. Para as massas o importante mesmo era estar contra a repressão e a ditadura.
O teatro e a música, que já vinham muito mal vistos pelos militares desde o golpe de 64, sentem o peso da censura e da repressão. A estupidez da “milicada” era, muitas vezes, uma fonte de inspiração para jornalistas, como ilustra o seguinte texto do Correio da Manhã, de Brasília:
Brasília assistiu a um espetáculo estranho. Viaturas do DOPS postaram-se diante de um teatro (...). Todo aquele aparato se voltava contra o elenco de "Um bonde chamado desejo", de Tennessee Williams, ou seja, contra quatro atrizes e três atores. A peça, depois de exibida à exaustão no Rio, São Paulo, Bahia, Belo Horizonte, sem falar no resto do mundo, ofendeu a sensibilidade de um censor, que exigiu o corte das palavras gorila, vaca e galinha. O censor se chama Leão. Talvez se julgue, portanto, o rei dos animais, com direito a vetar o nome de alguns de seus súditos. Em verdade esse Leão sugere outro animal, de orelhas compridas e zurrante.[2]

sexta-feira, 16 de março de 2012

Fome e especulação


Quase não é noticiado que os preços dos alimentos estão subindo descontroladamente pelo mundo inteiro. Porém, a que se deve?
Carmelo Ruiz Marrero - Jornalista e educador ambiental.
Diretor do Projeto de Biosegurança de Porto Rico


São dadas várias explicações, incluindo os desastres meteorológicos -inundações e secas- relacionados à mudança climática, ao boom dos biocombustíveis, à subida do preço do petróleo e ao aumento da demanda de carne e de grãos das crescentes classes médias da China e da Índia. Porém, há outro fato muito mais importante, que é ignorado na maioria das análises: a especulação por parte de investidores, que veem nos alimentos um novo horizonte de lucro.

Segundo a autora e analista catalã Esther Vivas (ver aqui, em espanhol), em meados de 2010, " especulação alimentar golpeava de novo e o preço dos alimentos voltava a subir”, pelo que "os especuladores sentiram-se incentivados a pedir novos empréstimos e a comprar mercadorias que, de maneira previsível, subiriam rapidamente de valor. Os próprios bancos, fundos de alto risco etc. que causaram a crise das hipotecas subprime são, atualmente, os responsáveis pela especulação com as matérias primas e o aumento do preço da comida, aproveitando-se de uns mercados globais de mercadorias profundamente desregularizados”.

"O desmedido fluxo de capitais especulativos distorce os mercados de tal forma que já não servem para a composição de preços dos alimentos”, sustenta a campanha Direito à Alimentação (ver aqui, em espanhol). "Os mercados de futuro não refletem a situação real de oferta e procura nos mercados agrícolas e seus preços não convergem com os do mercado varejista, nem proporcionam uma cobertura efetiva contra as flutuações. A falta de convergência nos preços e a alta volatilidade têm feito com que os mercados de futuro sobre matérias primas agrícolas sejam pouco fiáveis quanto à estimativa dos preços e de pouca utilidade na gestão de risco para produtores e consumidores”.

E, o que é um especulador? É quem nem produz e nem usa a mercadoria; porém, arrisca capital, comprando e vendendo contratos a futuro da mercadoria em questão, com o objetivo de lucrar a partir da variação em seu preço. O contrato a futuro é basicamente uma aposta a que o preço de uma mercadoria determinada subirá ou baixará.

domingo, 4 de março de 2012

DAWSON ISLA 10






Que filme comovente realizou Miguel Littín sobre os acontecimentos após o golpe de estado, em 11 de setembro de 1973. Ele foi diretor da estatal Chile Films de 1971 até o momento do golpe de estado, liderado por Pinochet, que depôs o governo democrático de Salvador Allende no Chile. 


Os ministros de Estado e todo o alto escalão,  sequestrados, são levados para a ilha Dawson, no extremo sul do país, trasformada em campo de concentração da ditadura chilena. Lá os presos políticos são submetidos a violentos interrogatórios, trabalhos forçados além de torturas físicas e psicológicas. 


Baseado no livro de Sergio Bittar, ministro de Minas de Allende, o filme tem momentos emocionantes, comoventes, em alguns momentos muito triste. Mesmo assim encontra espaço para o humor e para momentos singelos de amizade e solidariedade.  Littín mostra as contradições dos oficias de baixa patente ao ver irmãos chilenos serem destroçados pelos generais chilenos e o comando estadunidense.


Miguel Linttín é um ícone vivo do cinema de resistência Latino-americano. Um dos filmes mais conhecidos dele, Acta General de Chile (1988) é fruto de uma corajosa aventura em que, tres anos antes, entrou clandestinamente no Chile para a filmagem, com nome e documentos falsos.
Littín percorreu todo o Chile para realizar este filme que se desdobrou em uma película de quatro horas para a televisão e em outra de duas horas para o cinema. Littin filmou em todo o território chileno, até mesmo dentro do palácio presidencial de La Moneda, a poucos metros do gabinete de Augusto Pinochet.

Li há tempos o livro escrito por Gabriel García Márquez, intitulado “A Aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile”, que relata a aventura apos quatro horas de entrevista com Littín. Maravilhoso.

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