segunda-feira, 13 de agosto de 2012

UM BRASILEIRO NA GUERRILHA BOLIVIANA


A história do estudante gaúcho que denunciou torturas da ditadura, tornou-se guerrilheiro na Bolívia e desapareceu nas montanhas andinas

por Daniel Cassol, agência Pública

Os guerrilheiros do Exército de Libertação Nacional estão quase completando a travessia do rio Chimate, ao norte da Bolívia. Acossados  pelos militares, precisam ser rápidos. A vanguarda já atravessou o rio e a coluna do centro avança, observada por Raúl e Dippy, soldados da retaguarda destacados para indicar aos companheiros o caminho seguido pelas duas colunas da frente. No relógio, “expropriado” pela guerrilha, Dippy vê que são seis horas da tarde do dia 1º de setembro de 1970.
Uma patrulha militar ataca e a guerrilha se parte em duas. A retaguarda não consegue atravessar o rio. Raúl e Dippy correm mato adentro para escapar dos tiros. Esperam até a noite, talvez sejam encontrados pelos companheiros. Escutam disparos de morteiros e percebem que será impossível atravessar o rio.
A retaguarda nunca mais iria se reencontrar com o resto da tropa. Raúl e Dippy, estrangeiros em solo boliviano, ficariam sós.
Raúl é o nome de guerra do peruano Antero Callapiña Hurtado, estudante de engenharia civil na Polônia, recrutado para a guerrilha, assim como dezenas de jovens latino-americanos que estudavam em países socialistas. O outro, Dippy, era o único brasileiro entre os 67 combatentes que subiram as montanhas de Teoponte, a cerca de 200 quilômetros ao norte de La Paz, para retomar a guerrilha em Ñancahuazú, abortada três anos antes com a morte de seu comandante, Ernesto Che Guevara.
Dippy entrou com o codinome Eugenio, mas todos os chamavam pelo apelido adquirido no treinamento em Cuba, por abrasileirar a expressão “de pinga” – “di pinga”, ele dizia -  popularmente usada para se referir a algo formidável. Daí, virou Dippy.
Apartados do grupo, peruano e brasileiro passam quase 30 dias lutando pela sobrevivência na selva boliviana. Comem palmito e mascam folhas de coca para não morrer de inanição. Tentam chegar a algum povoado sem serem capturados pelo Exército. No último registro de seu diário, o brasileiro escreve:
- Hoje é uma data que não posso deixar de lembrar: dia 25. Faz quatro meses que me casei com Susana e hoje lembro dela mais do que nunca. Sinto falta dela e quero encontrá-la. Espero fazer isso antes do dia 1º de novembro e não pretendo me separar dela nunca mais.
O reencontro com a esposa, que àquela altura esperava um filho, nunca aconteceria.

Gaúcho de Formigueiro

Luiz Renato Pires Almeida é um dos 13 desaparecidos políticos brasileiros em território estrangeiro. As circunstâncias de sua execução nunca foram esclarecidas, tampouco seu corpo foi encontrado. O caminho que o levou de Formigueiro, no interior do Rio Grande do Sul, onde nasceu em 18 de novembro de 1943, até as montanhas bolivianas, onde morreu no começo de outubro de 1970, é o que se conta a seguir.
Caçula de 11 irmãos, filho de um agricultor, Lucrécio, e de dona Doca, apelido de Maria Conceição, o menino de Formigueiro foi morar na cidade aos 7 anos, quando o pai comprou uma “venda” em São Sepé, então sede do distrito. Em março de 1951, a família se instalou numa casa localizada no número 747 da rua 7 de Setembro.
Era um guri “medonho”, lembra a irmã Deni, e gostava de jogar futebol. Cursou metade do ginásio no Colégio Madre Júlia, de freiras, e concluiu o ensino fundamental no Colégio Estadual Tiaraju, onde fazia parte da chapa eleita para o Grêmio Estudantil em 1960. Ainda assim, contam os amigos, o garoto gostava mais das festas do que da política.
No Rio Grande do Sul, vivia-se a efervescência da Campanha da Legalidade, liderada em 1961 pelo governador Leonel Brizola, do Partido Trabalhista Brasileiro, para garantir a posse do presidente João Goulart, depois da renúncia de Jânio Quadros. A família comandada pelo pai, simpatizante da União Democrática Nacional (UDN), era politicamente conservadora.
A primeira influência mais à esquerda viria do professor Gerôncio Vaz, adepto dos ideais trabalhistas, que se tornaria um grande amigo de Renato. Mas ele só descobriria a política para valer ao se mudar em 1962 para Santa Maria, maior cidade da região, para cursar o Clássico no Colégio Estadual Manuel Ribas, o tradicional Maneco, e cumprir o serviço militar no 7º Regimento de Infantaria. Ali, voltou a ter contato com armas, das quais aprendera a gostar nas caçadas com os irmãos.

Na cintura, uma pistola de três canos

Em fevereiro de 1963, Renato ingressou na primeira turma do Colégio Agrotécnico da recém fundada Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Eleito para a diretoria do Centro de Estudantes do Colégio Agrotécnico, entrou de cabeça no movimento estudantil, mobilizado na defesa das reformas de base propostas pelo presidente João Goulart.
Ao 20 anos de idade, mais velho que a maioria da turma do ensino técnico, Renato impressionava. “Como era o mais velho da turma, era o líder da gurizada. Gostava de trago, fumava, andava armado. A gurizada achava o máximo”, recorda o colega Beto Vargas, hoje médico na cidade de Bagé. A pistola de três canos que carregava na cintura é uma lembrança dos amigos da época. “Foi a única vez que vi uma pistola daquelas”, recorda Rogério Vargas, irmão de Beto.
Rogério e Beto dividiam um quarto com Renato em uma pensão de Santa Maria. Renato tinha o costume de tomar chimarrão com Rogério pela manhã, para escutarem um programa da Rádio Nacional de Moscou transmitido em português.
Para a família, era visível a transformação do filho mais novo. “Nas primeiras férias que voltou de Santa Maria, era outra pessoa”, diz Zeca, um dos irmãos. “O Renato conversava um pouco com a gente e já vinha com a pregação do Mao Tsé-Tung”, lembra, achando graça. “Não seja tapado, tem que abrir os olhos”, dizia a Zeca. Chamava o pai de “tubarão” por estar politicamente ao lado dos ricos. Mas não deixava de abraçá-lo e chorar quando se despedia da família para retornar a Santa Maria. O apego à casa o faria escrever cartas aos irmãos de todos os lugares onde viveria depois.

Liderança estudantil

Em janeiro de 1964, Luiz Renato retornou de um congresso na Paraíba eleito presidente da União Nacional dos Estudantes Agrotécnicos (UNEA). Quase por acaso assumiu o cargo que o levaria à clandestinidade.

(recomendo que siga a leitura na íntegra) ->

domingo, 24 de junho de 2012

O Assassino e a Donzela


Muito bom o artigo que reproduzo abaixo. Mauro Malin faz uma exposição didática sobre dois episódios recentes, que ajuda a compreender o que se passou no Brasil de 50 anos para cá. Uma reflexão sobre as verdades que aos poucos vão emergindo.
Curiosamente, os protagonistas são um assassino e uma torturada. Remete ao excelente filme de Roman Polanski, "A Morte e a Donzela", quando confronta (lá fisicamente) o torturador, que violentou a personagem interpretada por Sigourney Weaver, que carrega o trauma por toda a vida. O torturador era o médico que dava assistência aos torturadores executores e, no uso das funções, a estuprou (ela tinha os olhos vendados). O filme de Polanski se passa em um país da América do Sul, sob as ditaduras sangrentas que se mantiveram mediante torturas e assassinatos.

COMISSÃO DA VERDADE

Relatos de torturada e de matador

Por Mauro Malin em 23/06/2012 na edição 699
A Folha de S. Paulo publicou na sexta-feira (22/6) depoimento da hoje presidente da República Dilma Rousseff ao Conselho de Direitos Humanos de Minas Gerais, em 2001, parcialmente divulgado no domingo (17/6) pelos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas. Dilma relatou com muita lucidez, em linguagem objetiva, o que sofrera trinta anos antes.
O material ganhou na Folha edição à altura de sua importância [ver abaixo]. Tem consistência para ser ponto de partida de novas pesquisas e reportagens sobre a repressão e as organizações que travaram o que Jacob Gorender definiu como Combate nas Trevas.
Lucia foi covardemente assassinada   
No Globo, o repórter Leonêncio Nossa, do Estado de S. Paulo, é entrevistado a respeito de seu recém-lançado livro Mata! O major Curió e as guerrilhas do Araguaia. Leonêncio pesquisou durante dez anos (ver “Um mergulho no último suspiro da guerrilha“). Teve acesso ao arquivo de Sebastião Rodrigues de Moura, o major Curió, um dos oficiais do Exército que participaram da repressão ao movimento guerrilheiro do PC do B e do massacre de seus integrantes. Leonêncio fez questão de só publicar aquilo que pôde confrontar com depoimentos de outros personagens (fez 150 entrevistas).

Uma falsa “guerra”
O material que se vai revelando após a sanção da Lei de Acesso à Informação e a constituição da Comissão da Verdade reforça duas constatações.
Primeira, que não houve “guerra” anticomunista, ou antirrevolucionária, como pretendem militares da reserva (e da ativa) para desculpar crimes contra os direitos humanos, e sim terrorismo de Estado contra pessoas presas, dominadas, indefesas. Voltaire começa o Tratado sobre a tolerância com a seguinte reflexão (em tradução livre do francês):
“Esquecemos rapidamente a multidão de mortos em inumeráveis batalhas, não só porque isso é uma fatalidade inevitável da guerra, mas porque os mortos pelas armas poderiam matar também seus inimigos, e não morreram sem se defender. Sempre que o perigo e as condições são iguais, o espanto cessa, e própria piedade se enfraquece. Mas se um pai de família é posto nas mãos do erro, ou da paixão, ou do fanatismo; se os que decidem sobre sua vida não se arriscam, ao decapitá-lo, nada além de ter cometido um erro; se podem matar impunemente por uma decisão administrativa, então o clamor público se eleva. Cada um teme por si mesmo. Vê-se que ninguém sente sua vida em segurança diante de um tribunal erigido para velar pela vida dos cidadãos, e todas as vozes se unem para pedir vingança.”
Diferentemente do que constatava Voltaire na Toulouse do século 18, não houve e não há no Brasil pedidos de vingança. Mas isso não retira um pingo da importância de se apurar, de acordo como diferentes relatos e documentos, o que aconteceu. E de extrair dessas narrativas um sentido que ajude os atores sociais a enfrentar seus desafios políticos. Hoje – para, por exemplo, erradicar a tortura em delegacias policiais e as execuções – e no futuro.
Segunda constatação, que a mídia, conjunto heterogêneo de olhares e vozes da sociedade, hoje parceira da Comissão da Verdade e sua antecessora na tarefa de buscar os fatos e torna-los públicos, a sucederá nessa tarefa durante longo tempo.

***
“Encarei a morte e a solidão”, diz Dilma
Paulo Peixoto # reproduzido da Folha de S.Paulo, 22/6/2012

Num depoimento de 2001, mas só agora divulgado, a presidente Dilma Rousseff relata detalhes sobre sua prisão aos 22 anos, ameaças e a tortura a que foi submetida na ditadura militar (1964-1985). Ela fala em medo, dor, choques, palmatórias e as marcas que ficaram disso tudo.
Entre as ameaças, cita uma encenação de fuzilamento e frases como “você vai ficar deformada”, “ninguém vai te querer”, “vai virar presunto”.
O relato foi feito ao Conselho dos Direitos Humanos de Minas Gerais, num processo para que ela pudesse ser indenizada em R$ 30 mil pelo Estado. Parte do teor foi divulgado no domingo pelos jornais “Correio Braziliense” e “Estado de Minas”.
“O estresse é feroz, inimaginável. Descobri pela primeira vez que estava sozinha. Encarei a morte e a solidão. Lembro-me do medo quando a minha pele tremeu”, diz ela.
Leia a íntegra:

terça-feira, 12 de junho de 2012

Gentileza Revolucionária

Este Homem é José Dirceu. Se você tem menos de 40 anos, não costuma ler fontes diversas ou livros da história contemporânea, é provável que nunca tenha ouvido falar nele antes de 2003.

José Dirceu ou Zé Dirceu foi um jovem idealista. Liderou o movimento estudantil na ditadura sanguinária - que se instalou no Brasil em 1964 - que fechou o Congresso, deu carta branca para o sequestro, a tortura e a morte de opositores.

Dirceu sempre foi uma espinha na garganta dos militares golpistas , associados às elites endinheiradas, às empresas multinacionais e ao comando dos EEUU. Gostariam de tê-lo apanhado, tê-lo torturado até a morte.

 O líder estudantil foi salvo por meio da ação das organizações que fizeram sequestros de embaixadores para trocar por companheiros que se exauriam nos porões clandestinos de tortura, mantidos pelo Estado. Em 1969, o  MR-8 e a ALN sequestraram o embaixador dos Estados Unidos e exigiram a libertação de prisioneiros constantes de uma lista,  salvando-os da morte certa. Entre eles estava José Dirceu, um jovem de 23 anos.

Retornou para o Brasil clandestinamente, em 1971, com o objetivo de continuar na luta. Depois da anistia participou da fundação do PT e deu início à carreira política dentro da legalidade. Uma frágil democracia, que até hoje ainda se reconstrói dos escombros, sob o manto da impunidade dos que impingiram o Estado de Terror no Brasil. Um tapete de silêncio ainda encobre fatos que marcaram o período da ditadura.

 Foi deputado constituinte, quando se estabeleceu a Constituição Cidadã de 1988. Também foi artífice da candidatura Lula.  Dirceu é odiado por nunca ter-se curvado. As ocorrências durante o governo Lula são marcadas pela hipocrisia. Aquela mesma que pauta a mídia, quando tenta esconder a Privataria Tucana.

As privatatizações realizadas pelo governo do tucanato foram um gigantesco esquema de caixa dois. O nome é este mesmo, a corrupção maior é decorrente desta indignidade. É o maior já existente na história. Documentos em profusão provam a existência do esquema da privataria tucana. Antes disso, há o canal que abasteceu o pseudo mensalão, que, como todos sabem, foi o valerioduto. Quem montou o esquema, com muitos milhões de dólares, foi o governador de Minas Gerais, o tucano Azeredo. O canal era o caixa dois da campanha do tucanato nacionalmente.

Voltando a José Dirceu, o Zé Dirceu, eu o reconheço como um homem que lutou e que continuou a lutar mesmo depois das torturas. Um homem que teve todas as oportunidades do mundo para abandonar a luta pela reconstrução do País. Ao contrário de muitos, ele nunca mudou de lado.
Enquanto houver o sistema eleitoral montado pelas elites oriundas da ditadura, a corrupção não acaba. Façamos a Reforma Política. Construída por meio de ampla consulta popular e não pelas velhas raposas.

Leila Jinkings. Recife, 12 de junho de 2012.

Bem a propósito, sobre o que escrevi acima, assista a hilária e estarrecedora entrevista de Ciro Gomes.

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domingo, 3 de junho de 2012

Jornalismo e... jornalismo

Vamos falar sobre liberdade de imprensa?
Mas leiam antes sobre o assunto, informem-se. Ou estarão sendo manipulados desavergonhadamente.

Deixo este vídeo muito interessante e didático, que ajuda a esclarecer as estratégias de dominação. Aproveitem a oportunidade.

Troféu "óleo de peroba" para Alexandre Garcia, que nem "sentiu a ditadura".





Este vídeo mostra o que se esconde por trás dos ataques sistemáticos da mídia brasileira contra a presidenta da Argentina, Cristina Kirchner. Para entender o jogo da mídia contra o que chamam de "kirchnerismo" é importante contextualizar a situação. Antes, vamos usar uma analogia metafórica. Você mora numa grande cidade em que três padarias controlam a qualidade, a variedade e o preço dos pães que você consome. E uma antiquada lei diz que só os políticos podem liberar concessões para novas padarias. E a maioria dos políticos (responsáveis pela tal lei) são donos das padarias; ou amigos destes; ou representantes dos mesmos. Daí, um governante assume a responsabilidade para criar uma nova lei que visa quebrar o cartel, dificultar o monopólio e facilitar o surgimento de novas padarias. O que faz o sindicato dos donos das padarias? Começa a espalhar panfletos dizendo que o governante quer controlar a produção de pães na cidade e ameaça a sua liberdade de escolher o pão que você vai comer. Agora, imagine se, em vez de mandar imprimir panfletos, os donos das padarias fossem donos de todos os meios de comunicação (jornal, rádio, tv etc) disponíveis. E tente imaginar se, em vez de pãezinhos, os produtos em questão fossem as notícias que influenciam a vida todos na cidade. Uma vez exposta esta metáfora, vamos conhecer um pouco a história da imprensa na Argentina para entender o que isto tem a ver com o Brasil.

sábado, 26 de maio de 2012

Memórias de uma guerra suja 1


O livro Memórias de uma Guerra suja, do amigo Rogério Medeiros e Marcello Netto será, sem dúvida, uma das referências importantes para guarnecer a Comissão da Verdade. Não há dois lados a investigar, isso é proselitismo de quem quer justificar o terror de Estado. A farsa cai por terra, a partir da ampla divulgação de documentos disponíveis nos arquivos e de reportagens como esta, do livro reportagem, que entra para a história do país.
Vale a pena ler a resenha de Pedro Pomar.

Notas sobre o “livro-bomba” do ex-delegado Guerra
por Pedro Pomar

Já chegou às livrarias “Memórias de uma guerra suja” (editora Topbooks, 291 páginas), que traz longo depoimento do ex-delegado de polícia Cláudio Guerra sobre os crimes que cometeu a serviço da Ditadura Militar, recolhido pelos jornalistas Rogério Medeiros e Marcelo Netto. São fortes revelações, que causaram algum impacto na mídia depois que o jornalista Tales Faria (IG) antecipou diversos trechos do livro. Entre os ex-presos políticos e os familiares das vítimas da Ditadura causou reações distintas: uma parte enxerga nele uma contribuição positiva ao desvendamento das atrocidades cometidas pelos militares e por seus cúmplices civis, mas há quem o considere uma provocação destinada a tumultuar o ambiente pré-Comissão Nacional da Verdade.

Após ler a obra, convenci-me de que se trata de importantíssimo subsídio para uma investigação acurada de diversos episódios-chave da repressão política levada a cabo pelo regime militar. Isso não quer dizer que se deve tomar por integralmente corretas e confiáveis as versões apresentadas por Cláudio Guerra para os muitos casos apresentados no livro. Mas uma parcela substancial das suas narrativas parece crível e merece, no mínimo, uma apuração séria de órgãos como Polícia Federal, Ministério Público Federal, Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos e, finalmente, a Comissão Nacional da Verdade, quando constituída.

credencias de Paulo Guerra  com 
licença para matar
É bem verdade que o modo de contar do ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) do Espírito Santo, pontilhado de autoelogios (por exemplo, “exímio atirador de elite”, p. 35), de histórias que parecem fantasiosas (como a viagem de ida e volta a Angola, num só dia, para executar um atentado à Rádio Nacional daquele país, p. 139), e de passagens obscuras ou mal explicadas não ajuda a formar opinião favorável. Mas suas afirmações sobre certos episódios são verossímeis, o que ficou demonstrado por apurações iniciais.

A Usina Cambahyba
Uma das mais impactantes revelações de Guerra é a de que pelo menos onze corpos de militantes de esquerda torturados e assassinados pela Ditadura Militar foram incinerados por ele na década de 1970, no forno da usina de açúcar Cambahyba, localizada em Campos (RJ) e pertencente ao então vice-governador Heli Ribeiro Gomes. No livro ele cita dez corpos, mas em visita posterior ao local o ex-delegado lembrou-se de outro. A visita foi acompanhada por um dos jornalistas co-autores (Marcelo Netto), por agentes da Polícia Federal e pelo advogado Antônio Carlos de Almeida Castro. Segundo o advogado, um antigo funcionário relatou a presença frequente de militares na usina.

Neste caso específico, as declarações do ex-delegado são bastante consistentes. A narrativa do fato tem coerência interna. Além disso, a “solução” encontrada para fazer sumirem os corpos dos militantes assassinados é tão brutal quanto outras já conhecidas (esquartejamento, queima de ossadas). As datas também coincidem. Guerra diz que a decisão de incinerar foi tomada em fins de 1973 (p. 50). As pessoas cujos corpos teriam sido incinerados foram capturadas e assassinadas em dezembro de 1973, como João Batista Rita (M3G) e Joaquim Pires Cerveira (FLN); em 1974, como João Massena Melo, José Roman, Davi Capistrano, Luis Ignácio Maranhão Filho (todos do PCB), Fernando Santa Cruz e Eduardo Collier Filho (ambos da APML), Ana Rosa Kucinski Silva e Wilson Silva (ambos da ALN); em 1975, como Armando Frutuoso (PCdoB).

Também do ponto de vista geográfico a explicação é plausível, pois quase todos esses militantes passaram pelos cárceres do Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) do I Exército, na rua Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro, e vários foram sabidamente conduzidos à “Casa da Morte”, em Petrópolis. Portanto a usina Cambahyba era relativamente próxima do local onde as pessoas foram assassinadas.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Sobreviveu a dois holocaustos


Sobrevivente do Holocausto relembra perda de filho em ditadura argentina

Sara Rus, que se descreve como 'duas vezes sobrevivente'

Elegante, jovial, Sara Rus, 85, irradia uma alegria que contrasta com os horrores que viveu. "Gosto do que eu tenho na minha vida", diz "Depois de tudo que passei, preciso."
Sara sobreviveu ao Holocausto judeu durante a 2ª Guerra Mundial, recordado pelas Nações Unidas neste mês. Perdeu o pai no terrível campo de concentração nazista de Auschwitz, peitou oficiais alemães, roubou comida para sobreviver, e sobreviveu.

Ao fim da guerra, fugiu para a Argentina, o país latino-americano com a maior comunidade judaica na região, para onde foi contrabandeada através da fronteira com o Paraguai.
Quando Sara conseguiu estabelecer uma nova vida, ter os filhos que lhe haviam dito que não podia ter e virar uma página turva na sua história, mais uma campanha de extermínio ceifou a vida de um parente imediato: seu filho, Daniel, que em 1977 passou a engrossar a lista de cerca de 30 mil desaparecidos na repressão do governo militar argentino.
Conta sua história a quem lhe pede. "Para que não esquecer o que passamos", afirma.

Guerra

Sara tinha apenas 12 anos quando a 2ª Guerra Mundial estourou em 1939, filha única de uma família de classe média judia em Lodz, na Polônia.
A imagem que marcou o início do seu horror foi a de seu pequeno violino desfeito em pedaços nas mãos de um soldado alemão que fazia parte de um grupo que invadiu sua casa.
Antes vivendo em um confortável apartamento, pai, mãe e filha foram amontoados em um único quarto, onde passaram a viver na miséria. Em 1940, sua mãe ficou grávida e teve um bebê no gueto de Lodz – mas o filho morreu aos três meses de idade.
No ano seguinte sua mãe voltaria a ficar grávida, mas o segundo bebê seria morto por tropas alemãs logo no nascimento.
"A vida no gueto era terrível. Não só pelas condições, mas porque todo dia os alemães selecionavam pessoas para levá-las a outro lugar. Pessoas que nunca mais eram vistas", recorda.
"A vida no gueto era terrível. Não só pelas condições, mas porque todo dia os alemães selecionavam pessoas para levá-las a outro lugar. Pessoas que nunca mais eram vistas."
Sara Rus
Sara diz que a única coisa boa que aconteceu no gueto de Lodz foi ter conhecido Bernardo, que mais tarde se tornaria seu marido e pai dos seus filhos.
Sabendo que Sara tinha um parente que antes da guerra havia fugido para Buenos Aires, Bernardo prometeu à namorada que, se sobrevivesse à guerra, a encontraria na capital da Argentina no dia 5 de maio de 1945.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Justiça pode julgar 1.500 repressores da era Pinochet

 A Corte de Apelações de Santiago recebeu, na tarde desta segunda-feira (09), um processo que pode levar a julgamento mais de 1.500 pessoas acusadas de colaborar com o principal órgão de repressão da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), a antiga Dina (Direção Nacional de Informações).

Memorial exibe fotos das vítimas da Villa Grimaldi, um dos prinicipais
centros de tortura do Chile/ Foto: Razi Sol/Wikicommons

A ação movida pela AFDD (Agrupação de Familiares de Detidos Desaparecidos) e pelo Partido Comunista do Chile está baseada em um ofício emitido em agosto de 2008 pelo ministro Alejandro Solís, da mesma Corte de Apelações, quando investigava documentos oficiais do exército chileno referentes às atividades praticadas pela Dina em Villa Grimaldi e outros antigos centros de tortura identificados na capital chilena. O próprio Sólis compareceu ao tribunal para acompanhar a entrega do processo.

Entre os 1.500 ex-agentes e colaboradores da Dina que foram indiciados estão o filho mais velho do ditador, Augusto Pinochet Hiriart, o deputado Rosauro Martínez (do partido Renovación Nacional, o mesmo do presidente Sebastián Piñera), Jaime García Covarrubia, assessor do Instituto de Defesa Hemisférica dos Estados Unidos, e o prefeito de Providência, Cristián Labbé, que foi guarda-costas pessoal de Pinochet durante a ditadura – Labbé foi quem organizou, em novembro de 2011, a polêmica homenagem ao brigadeiro Miguel Krassnoff, chefe da Dina.

“A sociedade chilena pede há anos para receber justiça por inteiro e não pela metade, não se pode tolerar mais que essas pessoas que ontem foram torturadores e assassinos hoje sejam prefeitos ou deputados, ou professores de universidade, como se não tivesse acontecido nada”, disse Lorena Pizarro, presidente da AFDD, que compareceu à Corte de Apelações nesta segunda-feira (09), para protocolar o processo, acompanhada de Hugo Gutiérrez, reconhecido advogado em causas de Direitos Humanos.

O processo também repercutiu na sede da UDI (União Democrática Independente), partido ultraconservador que abriga muitos ex-colaboradores da ditadura – entre eles, Cristián Labbé. O presidente da legenda, Patricio Melero, leu uma declaração a respeito, focada principalmente na participação do Partido Comunista entre os envolvidos na ação. “Os comunistas carecem de autoridade moral para falar em direitos humanos no Chile e no mundo inteiro. A FPMR (Frente Patriótico Manuel Rodríguez), que era o braço armado deles, cometeu terríveis atrocidades, das quais eles hoje preferem não se responsabilizar”, afirmou Melero.

O deputado comunista Hugo Gutiérrez não quis comentar as declarações de Melero, mas afirmou que o processo marca um precedente muito importante, pois seria “a primeira vez no Chile que se atua também contra um antigo organismo de Estado, acusando-o de associação ilícita. Até então somente se havia processos contra indivíduos ou grupos, sem responsabilizar os departamentos estatais dos quais eles faziam parte”.

O deputado, que fatuou como advogado em causas de direitos humanos, como o Caso Caravana da Morte (relativa ao grupo de extermínio criado pela ditadura para perseguir e assassinar líderes regionais do governo de Allende nas províncias distantes da capital Santiago), acredita que a repercussão deste novo caso poderia despertar maiores anseios por mudanças no país. “Vimos no ano passado, durante as marchas pela educação estudantis, que não só os estudantes, toda a sociedade chilena quer o fim da Constituição da ditadura (1980), vigente até hoje, e está ação vai por esse mesmo caminho, o de ter que lidar com os últimos vestígios daquele regime”, comentou.

Relatório contra Labbé

No final da tarde desta terça-feira (10), a Controladoria Geral da República tornou público um relatório no qual define que o prefeito de Providencia, Cristián Labbé excedeu suas faculdades administrativas ao realizar, em um edifício pertencente à Prefeitura, uma homenagem ao brigadeiro Miguel Krassnoff, primeiro chefe da Dina, que cumpre sentença de 144 anos de prisão por crimes contra os direitos humanos.

A homenagem aconteceu em 21 de novembro de 2011 no Clube Providencia, onde as manifestações realizadas do lado de fora, por familiares de vítimas de Krassnoff terminaram com violentos confrontos com as forças policiais.

A respeito do relatório, o próprio Labbé considerou que "o mais importante é que não há nenhuma medida contra mim, e nenhuma sanção, a Controladoria por ter sua opinião, eu respeito, mas é só uma opinião". Já o deputado Hugo Gutiérrez ressaltou que "a Controladoria não tem poder de sentenciar ninguém, ela somente analisa os casos, este relatório poderia gerar um processo no futuro, mas isso precisa ser avaliado".

Fonte: Ópera Mundi


Chile: Justiça pode julgar 1.500 repressores da era Pinochet - Portal Vermelho

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Por que a Veja é contra a CPMI do Cachoeira?

Deputado Marco Maia (PT-RS), presidente da Câmara dos Deputados (Foto: Arquivo/PT)





PRESIDENTE DA CÂMARA RESPONDE MATÉRIA PUBLICADA NA REVISTA VEJA. LEIA A ÍNTEGRA

Tendo em vista a publicação, na edição desta semana, de mais uma matéria opinativa por parte da revista Veja do Grupo Abril, desferindo um novo ataque desrespeitoso e grosseiro contra minha pessoa, sinto-me no dever de prestar os esclarecimentos a seguir em respeito aos cidadãos brasileiros, em especial aos leitores da referida revista e aos meus eleitores:

- a decisão de instalação de uma CPMI, reunindo Senado e Câmara Federal, resultou do entendimento quase unânime por parte do conjunto de partidos políticos com representação no Congresso Nacional sobre a necessidade de investigar as denúncias que se tornaram públicas, envolvendo as relações entre o contraventor conhecido como Carlinhos Cachoeira com integrantes dos setores público e privado, entre eles a imprensa;

- não é verdadeira, portanto, a tese que a referida matéria tenta construir (de forma arrogante e totalitária) de que esta CPMI seja um ato que vise tão somente confundir a opinião pública no momento em que o judiciário prepara-se para julgar as responsabilidades de diversos políticos citados no processo conhecido como “Mensalão”;

- também não é verdadeira a tese, que a revista Veja tenta construir (também de forma totalitária), de que esta CPMI tem como um dos objetivos realizar uma caça a jornalistas que tenham realizado denúncias contra este ou aquele partido ou pessoa. Mas posso assegurar que haverá, sim, investigações sobre as graves denúncias de que o contraventor Carlinhos Cachoeira abastecia jornalistas e veículos de imprensa com informações obtidas a partir de um esquema clandestino de arapongagem;

- vale lembrar que, há pouco tempo, um importante jornal inglês foi obrigado a fechar as portas por denúncias menos graves do que estas. Isto sem falar na defesa que a matéria da Veja faz da cartilha fascista de que os fins justificam os meios ao defender o uso de meios espúrios para alcançar seus objetivos;

- afinal, por que a revista Veja é tão crítica em relação à instalação desta CPMI? Por que a Veja ataca esta CPMI? Por que a Veja, há duas semanas, não publicou uma linha sequer sobre as denúncias que envolviam até então somente o senador Demóstenes Torres, quando todos (destaco “todos”) os demais veículos da imprensa buscavam desvendar as denúncias? Por que não investigar possíveis desvios de conduta da imprensa? Vai mal a Veja!;

- o que mais surpreende é o fato de que, em nenhum momento nas minhas declarações durante a última semana, falei especificamente sobre a revista, apontei envolvidos, ou mesmo emiti juízo de valor sobre o que é certo ou errado no comportamento da imprensa ou de qualquer envolvido no esquema. Ao contrário, apenas afirmei a necessidade de investigar tudo o que diz respeito às relações criminosas apontadas pelas Operações Monte Carlo e Vegas;

- não é a primeira vez que a revista Veja realiza matérias, aparentemente jornalísticas, mas com cunho opinativo, exagerando nos adjetivos a mim, sem sequer, como manda qualquer manual de jornalismo, ouvir as partes, o que não aconteceu em relação à minha pessoa (confesso que não entendo o porquê), demonstrando o emprego de métodos pouco jornalísticos, o que não colabora com a consolidação da democracia que tanto depende do uso responsável da liberdade de imprensa.

Dep. Marco Maia,

Presidente da Câmara dos Deputados

http://brasilmobilizado.blogspot.com.br/2012/04/marco-maia-por-que-veja-e-contra-cpmi.html


domingo, 1 de abril de 2012

Mortes à sombra dos quepes

domingo, 1º de abril de 2012


Mortes à sombra dos quepes - 48 anos do golpe

Carlos Franco
 
Em trechos inéditos de um depoimento histórico, o ex-presidente Ernesto Geisel defende a tortura e confirma que o Exército matou Vladimir Herzog e o operário Manuel Fiel Filho 
Ernesto Geisel não se recusou a tratar de temas cruciais
como os enforcamentos nas prisões em 36 horas
 gravadas pelos historiadores

A poucos dias do anúncio dos nomes da Comissão da Verdade responsáveis por desvelar os segredos guardados nos porões da ditadura militar (1964-1985), um pouco das histórias escondidas pela repressão foi trazido à luz por uma entrevista concedida em 1993 pelo general Ernesto Geisel ao Centro de Documentação e Pesquisa (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas (FGV). Quarto presidente a ocupar o Palácio do Planalto depois do golpe de 31 de março de 1964, o “Alemão” confirmou que o regime à época não só praticava a tortura, como foi o responsável direto pelas mortes do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, e do operário Manuel Fiel Filho, em 1976.

Geisel chegou a confirmar aos historiadores Maria Celina D’Araújo e Celso Castro que, ao contrário da versão oficial difundida à época, Fiel Filho foi, sim, morto por militares: “Num fim de semana, ele (o então comandante do Exército em São Paulo, general Ednardo D’Ávila Mello) não estava em São Paulo e mataram o operário”.
O material recolhido pelos pesquisadores, e que deve ser analisado pela Comissão da Verdade, reúne mais de 36 horas de gravações que traçam um panorama da história recente do país. Parte já foi publicada no livro Dossiê Geisel, mas vários trechos permanecem inéditos — como a confissão do assassinato de Fiel Filho pelo Exército. Maria Celina diz ao Estado de Minas que, mais importante do que os depoimentos dos comandantes militares coletados pela instituição — que encerram um ciclo até porque muitos morreram —, é avançar na reconstituição dos aparelhos de terror do Estado.
“Os militares, inclusive Geisel, defenderam a repressão, mas o regime de terror de Estado teve participação ativa da mídia e de empresários. Essa é a história que falta levantar. Espero que a Comissão da Verdade avance nesse sentido”, pressiona Celina. Geisel, explica ela, tentou driblar e desmantelar a esquerda e a extrema direita durante o seu governo. “Teve êxito no primeiro combate, pois a esquerda se desmantelou, mas a extrema direita se manteve ativa e operante até o atentado no RioCentro, em 30 de abril de 1981, durante o show do 1º de Maio”, esclarece. Faltaria ouvir, portanto, empresários que estão vivos e podem esclarecer o funcionamento das masmorras.
“A sociedade que participou dessa repressão precisa e deve ser ouvida, como ocorreu na Alemanha pós-Hitler e como ocorre hoje na Espanha em relação à ditadura de Franco.” Celina está convencida de que, assim, a história será resgatada e de que a anistia estará em xeque e poderá ser revista. “O governo do general João Baptista Figueiredo foi o governo dos órgãos de inteligência e o texto da Lei de Anistia levou em conta essa realidade. ”A historiadora não vê esse resgate da memória como sinal de revanche, mas como dever de Estado, em nome da verdade histórica.

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