segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Guerra e Paz. Uma questão para o diálogo


RESUMEN LATINOAMERICANO entrevistou em Havana as FARC
Lideranças das FARCS em negociações de Paz
em 3 de outubro de 2012

“Sempre é perigoso dialogar sob fogo. Tentar falar sob as balas e os bombardeios é um risco muito grande”.

Por Carlos Aznárez, diretor do jornal Resumen Latinoamericano, de Havana


A muito poucos dias das conversações de paz entre o governo colombiano
e as FARC, o integrante da direção dessa organização guerrilheira,
Comandante Ricardo Téllez [Rodrigo Granda] assinalou que “o
convencimento do governo de Juan Manuel Santos de que não podiam
ganhar a guerra em forma rápida os levou a dialogar”.

Téllez, a quem também se conhece como o “Chanceler das FARC”, atua na
insurgência desde 1980, e muito antes já havia passado à
clandestinidade por sua miliância no Partico Comunista de seu país.
Confessou que um momento muito difícil das conversações exploratórias
que começaram em 2010 se deu quando primeiro foi assassinado o
comandante Jorge Briceño [Mono Jojoy], e logo após o mesmo ocorreu
quando caiu em combate o máximo referente das FARC Alfonso Cano. “Ali,
nos vimos obrigados a avaliar se tomávamos a decisão de seguir ou
chutávamos o tabuleiro. No entanto, nos demos conta que o objetivo era
a paz, como sempre o havia definido nosso Comandante Manuel Marulanda
Vélez, e decidimos seguir tentando-o”. Téllez não tem a menor dúvida,
e assim o expressou em Havana, que, se se dão avanços no diálogo,
desta vez poderiam abrir-se definitivamente as portas da pacificação.

Farc discordam de presidente da Colômbia sobre caminhos para a paz
Alfonso Cano, morto em novembro de 2012 (Foto: © Eliana Aponte / Reuters)
 
- Foi muito difícil chegar a este momento atual? Como foram as
primeiras conversações exploratórias?

- Este caminho não foi simples, porque viemos de uma guerra bastante
dura, de oito anos do senhor Uribe e dois anos de Juan Manuel Santos.
Uma vez que o presidente Santos assumiu o mandato, enviou uma carta ao
Secretariado das FARC, dizendo que o que nós propúnhamos na agenda da
Nova Colômbia bolivariana podia ser discutido, porém que o que fazia
mal ao país eram as formas de luta que nós utilizávamos. De todas as
maneiras, ele reconhecia que em Colômbia havia um conflito, que era
algo que Uribe não aceitava.

A partir dali começou um intercâmbio epistolar, que concluiu numa
reunião que se fez em Colômbia, à qual lhe seguiram alguns encontros
em outros terrritórios não colombianos, para depois terminar em Cuba,
em reuniões que denominamos “discretas e secretas” durante seis meses,
até chegar ao atual momento.

- Vocês, durante um longo tempo, insistiram, diferentemente do ELN,
que as conversações tinham que ser em Colômbia. Que os fez mudar de
opinião?

- Veja que, desde tempos atrás, no governo de Gaviria, dialogamos em
Caracas, e em seguida no México. Para nós, o lugar nunca foi uma
questão de princípios, senão que o importante é ter a fundamentação e
a confiança para encarar os diálogos.

- Quanto tempo deliberarão em Oslo?

- O de Oslo é somente a instalação da mesa, lá deliberaremos dois ou
três dias no máximo, e logo após o importante se discutirá em Havana.
Também acordamos que também se poderão realizar reuniões em outros
países [n. r.: Não se descarta que uma desses sedes possa ser
Argentina ou Brasil] de acordo como se irão dando as discussões.

- Quais são as razões que os levam a pensar que o estabelecimento
colombiano tem necessidade de encarar a paz precisamente neste
momento?

- Eles levaram adiante com todas as suas forças o Plano Colômbia. A
ideia era exterminar-nos em quatro anos, em forma física. Quer dizer,
demonstrar ao mundo que a guerrilha poderia ser derrotada por essa via
militar. Esses primeiros quatro anos do senhor Uribe não frutificaram
no que ele pretendia. Conseguiu outros quatro anos com sua reeleição,
e nesse período se investiram mais de 12 bilhões de dólares na guerra
em Colômbia. Está a presença norte-americana, há pessoal israelense e
do Reino Unido e de outras potências, metidas na guerra contra o povo
colombiano. Eles haviam falado do pós- conflito e resulta que isso que
pretendiam não se vê por nenhum lado. Temos uma guerrilha forte, bem
equipada, que obviamente sofreu alguns golpes duros, porém que soube
adaptar-se, com muita facilidade, às novas formas que assume a guerra
em Colômbia.

Esse aspecto de não poder ganhar a guerra em forma rápida, levou ao
convencimento do senhor Santos e a seus patrocinadores, os EEUU, de
que era melhor dialogar. Nós somos porta-bandeiras da paz e do
diálogo. E nos alçamos em armas precisamente porque se nos haviam
fechado esses caminhos. Agora, bem, o estabelecimento colombiano pensa
incrementar ao máximo todas as políticas neoliberais, já que têm 52
tratados de livre comércio firmados com diferentes países do mundo,
uma boa quantidade de projetos agroindustriais e mineiros, mais
projetos energéticos multimilionários. Não nos esqueçamos que Colômbia
é um dos países mais ricos do continente: nós temos ouro, prata,
esmeraldas, ao que há que somar costas nos dois mares, e a selva
amazônica. Todos estes projetos que as transnacionais impulsionam se
chocam contra uma resistência armada. A partir dali, nossos inimigos
deduzem que é melhor solucionar este conflito pela via dialogada.
Ademais, em função da crise que vive o mundo, e especialmente Europa,
temem que suas consequências poderiam gerar um caldo de cultura para
que, a partir da experiência que têm as FARC, surjam outras guerrilhas
no continente.

sábado, 6 de outubro de 2012

Por Amor ao Recife


Por amor ao Recife
Amigas e amigos
Eu gostaria de compartilhar a alegria de encontrar uma candidata diferenciada, especial. Cida Pedrosa pertence ao mundo da arte e da fraternidade. Cida é poeta, é artista. Tem uma trajetória de superação, de muita luta, que não tiveram a capacidade de lhe tirar a ternura, a alma e os sentimentos bons. Ela, como eu, pensa que podemos construir um mundo melhor.
Meus amigos, nós podemos mudar a cara da câmara municipal. Promover mudanças, colocando cabeças, corações, mentes e emoção na política.  Somos nós que vamos fazer mudar, ninguém mais.
Eu peço a você o voto para a minha candidata. Vote na Cida Pedrosa, de n°65613 — Cida Pedrosa 65613.
Confio e espero em Cida um mandato criativo e profícuo. Como ela costuma dizer:
“UM MANDATO QUE QUER SER DECENTE E HUMANO, ONDE POLÍTICA, POVO E POESIA ANDEM JUNTOS, SEM RECEIO, PARA CONSTRUIR UMA RECIFE CRIATIVA”.
Obrigada,
Leila Jinkings

domingo, 16 de setembro de 2012

"la noche de los lápices"

O dia 16 de setembro de 1976, tristemente lembrado como "La noche de los lápices", foi um dos fatos mais emblemáticos da ditadura implantada na Argentina., quando jovens secundaristas, entre 14 e 17 anos, foram sequestrados, torturados e assassinados (apenas 4 sobreviveram), depois de manifestação por meia passagem. O triste episódio de 16 de setembro de 1976 ficou conhecido como "La noche de los lápices". Pablo Diaz, tornou as acusações públicas dez anos depois, em 1985, e escreveu um livro onde conta o suplício dele e dos jovens companheiros - quase crianças - nos porões da ditadura. O livro deu origem a este emocionante filme do argentino Hector de Olivera, lançado em 1986. Eu assisti graças à internet, mas gostaria de adquirir para assistir e compartilhar em alta resolução, como o filme merece. 


sábado, 8 de setembro de 2012

A mídia e os políticos | Carta Capital


Mino Carta



A inveja dói. Não bastou cair nos braços de Clinton para ser “o cara”. Foto: Lula Marques / Folhapress
Quando me convidam para falar em público, quase sempre plateias universitárias, às vezes, se a situação recomenda, proponho: levante o braço quem já leu um livro de Fernando Henrique Cardoso. Ao cabo de décadas de palestras, vi ao todo três braços erguidos. O príncipe dos sociólogos é lido por pouquíssimos.
Fama usurpada? Anos atrás, em conversa com um caro amigo, ousei citar o líder comunista italiano Massimo D’Alema, o qual, sem referir-se ao sociólogo, disse do político: “Fernando Henrique é um presidente de exportação”. O caro amigo me convidou com extrema firmeza a passar o resto dos meus dias na Itália e nunca mais falou comigo. E nem sei se ele leu algum livro do seu herói.
Avento a hipótese de que haja quem coloque FHC sobre um pedestal inviável e lhe atribua um peso específico inexistente, a configurar um mistério brasileiro digno da análise dos cultores do absurdo. Entendo que a presidenta Dilma fique indignada com o artigo que o presidente da reeleição comprada publicou no Estadão de domingo 2 de setembro para denunciar no chamado “mensalão” a herança de Lula. Mas vale a pena abrir portas abertas ou conversar com as paredes para replicar a um texto ditado, antes de mais nada, pela inveja?
Há quem diga que mesmo em Higienópolis, o bairro heráldico de São Paulo, o morador FHC deixou de ser assunto há muito tempo. E quanto há de sofrer o esquecido, devorado pela constatação de que Lula não foi presidente de exportação para ser reconhecido internacionalmente como “o cara” sem precisar atirar-se nos braços do presidente americano. À época da Presidência tucana, Clinton, avalista do neoliberalismo mundial, ao qual FHC aderiu sofregamente.
Estranho, de todo modo, que as autoridades brasileiras atualmente no poder atribuam importância a uma mídia disposta a desancá-las in limine e a priori para apoiar maciçamente o tucanato, com resultados tragicômicos, como se viu em 2002, 2006 e 2010. Nesta semana, a espantosa Veja registra a mudança histórica representada pelas “condenações de mensaleiros”. “O Brasil reencontra o rumo ético”, afirma, e nisto conta com a imediata concordância de Época, a global.
Simples explicar tanto regozijo: Veja e Época consideram-se pontas de lança da mídia enfim vencedora. Sem entrar no mérito da palavra errada, mensaleiros, entregam-se ao estado de graça os mesmos que silenciaram em relação ao “mensalão” tucano, das privatizações em diante. Cabe perguntar por que o Brasil não começou a mudar então.
Os políticos, em geral, ainda não entenderam que esta mídia, pronta a antecipar os veredictos do Supremo, serve exclusivamente à minoria privilegiada, a lhe repetir as frases feitas, a lhe engolir as mentiras, a acreditar em suas invenções qual fossem a própria verdade factual, sem dar-se conta, é óbvio, das omissões. E para impedir a convocação de Policarpo Jr. diretor da sucursal de Veja em Brasília, parceiro de Carlinhos Cachoeira em algumas clamorosas contravenções, destinada à apuração da CPI, basta e sobra que um representante da Abril baixe na capital federal e converse com quem de direito, habilitado a dar um jeito. Ah, sim, o famoso jeitinho brasileiro. Daí, a moral: o Brasil não é o Reino Unido, que manda para casa o senhor Murdoch.
Veja e Época celebram a mudança que lhes convém, expõem-se, contudo, a um risco. E se o Supremo tomar gosto pela fidelidade à deusa vendada e depois do processo em curso partir para outro, o julgamento das falcatruas tucanas? Os dias não têm sido luminosos para o PSDB, à vista, inclusive, da luta intestina a ser precipitada pela possível (provável?) derrota de José Serra na iminente eleição paulistana. Quem será o próximo candidato tucano à Presidência da República, o anti-Dilma? Nuvens plúmbeas estacionam no horizonte.
Desde já, CartaCapital avisa. Tão logo termine o julgamento do chamado “mensalão petista”, nossa capa vai soletrar: E AGORA VAMOS AO MENSALÃO TUCANO. Temos um excelente enredo a desenrolar. Se mudança houve, que seja.
http://www.cartacapital.com.br/politica/a-midia-e-os-politicos/#.UEunmpI1QzA.blogger

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

UM BRASILEIRO NA GUERRILHA BOLIVIANA


A história do estudante gaúcho que denunciou torturas da ditadura, tornou-se guerrilheiro na Bolívia e desapareceu nas montanhas andinas

por Daniel Cassol, agência Pública

Os guerrilheiros do Exército de Libertação Nacional estão quase completando a travessia do rio Chimate, ao norte da Bolívia. Acossados  pelos militares, precisam ser rápidos. A vanguarda já atravessou o rio e a coluna do centro avança, observada por Raúl e Dippy, soldados da retaguarda destacados para indicar aos companheiros o caminho seguido pelas duas colunas da frente. No relógio, “expropriado” pela guerrilha, Dippy vê que são seis horas da tarde do dia 1º de setembro de 1970.
Uma patrulha militar ataca e a guerrilha se parte em duas. A retaguarda não consegue atravessar o rio. Raúl e Dippy correm mato adentro para escapar dos tiros. Esperam até a noite, talvez sejam encontrados pelos companheiros. Escutam disparos de morteiros e percebem que será impossível atravessar o rio.
A retaguarda nunca mais iria se reencontrar com o resto da tropa. Raúl e Dippy, estrangeiros em solo boliviano, ficariam sós.
Raúl é o nome de guerra do peruano Antero Callapiña Hurtado, estudante de engenharia civil na Polônia, recrutado para a guerrilha, assim como dezenas de jovens latino-americanos que estudavam em países socialistas. O outro, Dippy, era o único brasileiro entre os 67 combatentes que subiram as montanhas de Teoponte, a cerca de 200 quilômetros ao norte de La Paz, para retomar a guerrilha em Ñancahuazú, abortada três anos antes com a morte de seu comandante, Ernesto Che Guevara.
Dippy entrou com o codinome Eugenio, mas todos os chamavam pelo apelido adquirido no treinamento em Cuba, por abrasileirar a expressão “de pinga” – “di pinga”, ele dizia -  popularmente usada para se referir a algo formidável. Daí, virou Dippy.
Apartados do grupo, peruano e brasileiro passam quase 30 dias lutando pela sobrevivência na selva boliviana. Comem palmito e mascam folhas de coca para não morrer de inanição. Tentam chegar a algum povoado sem serem capturados pelo Exército. No último registro de seu diário, o brasileiro escreve:
- Hoje é uma data que não posso deixar de lembrar: dia 25. Faz quatro meses que me casei com Susana e hoje lembro dela mais do que nunca. Sinto falta dela e quero encontrá-la. Espero fazer isso antes do dia 1º de novembro e não pretendo me separar dela nunca mais.
O reencontro com a esposa, que àquela altura esperava um filho, nunca aconteceria.

Gaúcho de Formigueiro

Luiz Renato Pires Almeida é um dos 13 desaparecidos políticos brasileiros em território estrangeiro. As circunstâncias de sua execução nunca foram esclarecidas, tampouco seu corpo foi encontrado. O caminho que o levou de Formigueiro, no interior do Rio Grande do Sul, onde nasceu em 18 de novembro de 1943, até as montanhas bolivianas, onde morreu no começo de outubro de 1970, é o que se conta a seguir.
Caçula de 11 irmãos, filho de um agricultor, Lucrécio, e de dona Doca, apelido de Maria Conceição, o menino de Formigueiro foi morar na cidade aos 7 anos, quando o pai comprou uma “venda” em São Sepé, então sede do distrito. Em março de 1951, a família se instalou numa casa localizada no número 747 da rua 7 de Setembro.
Era um guri “medonho”, lembra a irmã Deni, e gostava de jogar futebol. Cursou metade do ginásio no Colégio Madre Júlia, de freiras, e concluiu o ensino fundamental no Colégio Estadual Tiaraju, onde fazia parte da chapa eleita para o Grêmio Estudantil em 1960. Ainda assim, contam os amigos, o garoto gostava mais das festas do que da política.
No Rio Grande do Sul, vivia-se a efervescência da Campanha da Legalidade, liderada em 1961 pelo governador Leonel Brizola, do Partido Trabalhista Brasileiro, para garantir a posse do presidente João Goulart, depois da renúncia de Jânio Quadros. A família comandada pelo pai, simpatizante da União Democrática Nacional (UDN), era politicamente conservadora.
A primeira influência mais à esquerda viria do professor Gerôncio Vaz, adepto dos ideais trabalhistas, que se tornaria um grande amigo de Renato. Mas ele só descobriria a política para valer ao se mudar em 1962 para Santa Maria, maior cidade da região, para cursar o Clássico no Colégio Estadual Manuel Ribas, o tradicional Maneco, e cumprir o serviço militar no 7º Regimento de Infantaria. Ali, voltou a ter contato com armas, das quais aprendera a gostar nas caçadas com os irmãos.

Na cintura, uma pistola de três canos

Em fevereiro de 1963, Renato ingressou na primeira turma do Colégio Agrotécnico da recém fundada Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Eleito para a diretoria do Centro de Estudantes do Colégio Agrotécnico, entrou de cabeça no movimento estudantil, mobilizado na defesa das reformas de base propostas pelo presidente João Goulart.
Ao 20 anos de idade, mais velho que a maioria da turma do ensino técnico, Renato impressionava. “Como era o mais velho da turma, era o líder da gurizada. Gostava de trago, fumava, andava armado. A gurizada achava o máximo”, recorda o colega Beto Vargas, hoje médico na cidade de Bagé. A pistola de três canos que carregava na cintura é uma lembrança dos amigos da época. “Foi a única vez que vi uma pistola daquelas”, recorda Rogério Vargas, irmão de Beto.
Rogério e Beto dividiam um quarto com Renato em uma pensão de Santa Maria. Renato tinha o costume de tomar chimarrão com Rogério pela manhã, para escutarem um programa da Rádio Nacional de Moscou transmitido em português.
Para a família, era visível a transformação do filho mais novo. “Nas primeiras férias que voltou de Santa Maria, era outra pessoa”, diz Zeca, um dos irmãos. “O Renato conversava um pouco com a gente e já vinha com a pregação do Mao Tsé-Tung”, lembra, achando graça. “Não seja tapado, tem que abrir os olhos”, dizia a Zeca. Chamava o pai de “tubarão” por estar politicamente ao lado dos ricos. Mas não deixava de abraçá-lo e chorar quando se despedia da família para retornar a Santa Maria. O apego à casa o faria escrever cartas aos irmãos de todos os lugares onde viveria depois.

Liderança estudantil

Em janeiro de 1964, Luiz Renato retornou de um congresso na Paraíba eleito presidente da União Nacional dos Estudantes Agrotécnicos (UNEA). Quase por acaso assumiu o cargo que o levaria à clandestinidade.

(recomendo que siga a leitura na íntegra) ->

domingo, 24 de junho de 2012

O Assassino e a Donzela


Muito bom o artigo que reproduzo abaixo. Mauro Malin faz uma exposição didática sobre dois episódios recentes, que ajuda a compreender o que se passou no Brasil de 50 anos para cá. Uma reflexão sobre as verdades que aos poucos vão emergindo.
Curiosamente, os protagonistas são um assassino e uma torturada. Remete ao excelente filme de Roman Polanski, "A Morte e a Donzela", quando confronta (lá fisicamente) o torturador, que violentou a personagem interpretada por Sigourney Weaver, que carrega o trauma por toda a vida. O torturador era o médico que dava assistência aos torturadores executores e, no uso das funções, a estuprou (ela tinha os olhos vendados). O filme de Polanski se passa em um país da América do Sul, sob as ditaduras sangrentas que se mantiveram mediante torturas e assassinatos.

COMISSÃO DA VERDADE

Relatos de torturada e de matador

Por Mauro Malin em 23/06/2012 na edição 699
A Folha de S. Paulo publicou na sexta-feira (22/6) depoimento da hoje presidente da República Dilma Rousseff ao Conselho de Direitos Humanos de Minas Gerais, em 2001, parcialmente divulgado no domingo (17/6) pelos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas. Dilma relatou com muita lucidez, em linguagem objetiva, o que sofrera trinta anos antes.
O material ganhou na Folha edição à altura de sua importância [ver abaixo]. Tem consistência para ser ponto de partida de novas pesquisas e reportagens sobre a repressão e as organizações que travaram o que Jacob Gorender definiu como Combate nas Trevas.
Lucia foi covardemente assassinada   
No Globo, o repórter Leonêncio Nossa, do Estado de S. Paulo, é entrevistado a respeito de seu recém-lançado livro Mata! O major Curió e as guerrilhas do Araguaia. Leonêncio pesquisou durante dez anos (ver “Um mergulho no último suspiro da guerrilha“). Teve acesso ao arquivo de Sebastião Rodrigues de Moura, o major Curió, um dos oficiais do Exército que participaram da repressão ao movimento guerrilheiro do PC do B e do massacre de seus integrantes. Leonêncio fez questão de só publicar aquilo que pôde confrontar com depoimentos de outros personagens (fez 150 entrevistas).

Uma falsa “guerra”
O material que se vai revelando após a sanção da Lei de Acesso à Informação e a constituição da Comissão da Verdade reforça duas constatações.
Primeira, que não houve “guerra” anticomunista, ou antirrevolucionária, como pretendem militares da reserva (e da ativa) para desculpar crimes contra os direitos humanos, e sim terrorismo de Estado contra pessoas presas, dominadas, indefesas. Voltaire começa o Tratado sobre a tolerância com a seguinte reflexão (em tradução livre do francês):
“Esquecemos rapidamente a multidão de mortos em inumeráveis batalhas, não só porque isso é uma fatalidade inevitável da guerra, mas porque os mortos pelas armas poderiam matar também seus inimigos, e não morreram sem se defender. Sempre que o perigo e as condições são iguais, o espanto cessa, e própria piedade se enfraquece. Mas se um pai de família é posto nas mãos do erro, ou da paixão, ou do fanatismo; se os que decidem sobre sua vida não se arriscam, ao decapitá-lo, nada além de ter cometido um erro; se podem matar impunemente por uma decisão administrativa, então o clamor público se eleva. Cada um teme por si mesmo. Vê-se que ninguém sente sua vida em segurança diante de um tribunal erigido para velar pela vida dos cidadãos, e todas as vozes se unem para pedir vingança.”
Diferentemente do que constatava Voltaire na Toulouse do século 18, não houve e não há no Brasil pedidos de vingança. Mas isso não retira um pingo da importância de se apurar, de acordo como diferentes relatos e documentos, o que aconteceu. E de extrair dessas narrativas um sentido que ajude os atores sociais a enfrentar seus desafios políticos. Hoje – para, por exemplo, erradicar a tortura em delegacias policiais e as execuções – e no futuro.
Segunda constatação, que a mídia, conjunto heterogêneo de olhares e vozes da sociedade, hoje parceira da Comissão da Verdade e sua antecessora na tarefa de buscar os fatos e torna-los públicos, a sucederá nessa tarefa durante longo tempo.

***
“Encarei a morte e a solidão”, diz Dilma
Paulo Peixoto # reproduzido da Folha de S.Paulo, 22/6/2012

Num depoimento de 2001, mas só agora divulgado, a presidente Dilma Rousseff relata detalhes sobre sua prisão aos 22 anos, ameaças e a tortura a que foi submetida na ditadura militar (1964-1985). Ela fala em medo, dor, choques, palmatórias e as marcas que ficaram disso tudo.
Entre as ameaças, cita uma encenação de fuzilamento e frases como “você vai ficar deformada”, “ninguém vai te querer”, “vai virar presunto”.
O relato foi feito ao Conselho dos Direitos Humanos de Minas Gerais, num processo para que ela pudesse ser indenizada em R$ 30 mil pelo Estado. Parte do teor foi divulgado no domingo pelos jornais “Correio Braziliense” e “Estado de Minas”.
“O estresse é feroz, inimaginável. Descobri pela primeira vez que estava sozinha. Encarei a morte e a solidão. Lembro-me do medo quando a minha pele tremeu”, diz ela.
Leia a íntegra:

terça-feira, 12 de junho de 2012

Gentileza Revolucionária

Este Homem é José Dirceu. Se você tem menos de 40 anos, não costuma ler fontes diversas ou livros da história contemporânea, é provável que nunca tenha ouvido falar nele antes de 2003.

José Dirceu ou Zé Dirceu foi um jovem idealista. Liderou o movimento estudantil na ditadura sanguinária - que se instalou no Brasil em 1964 - que fechou o Congresso, deu carta branca para o sequestro, a tortura e a morte de opositores.

Dirceu sempre foi uma espinha na garganta dos militares golpistas , associados às elites endinheiradas, às empresas multinacionais e ao comando dos EEUU. Gostariam de tê-lo apanhado, tê-lo torturado até a morte.

 O líder estudantil foi salvo por meio da ação das organizações que fizeram sequestros de embaixadores para trocar por companheiros que se exauriam nos porões clandestinos de tortura, mantidos pelo Estado. Em 1969, o  MR-8 e a ALN sequestraram o embaixador dos Estados Unidos e exigiram a libertação de prisioneiros constantes de uma lista,  salvando-os da morte certa. Entre eles estava José Dirceu, um jovem de 23 anos.

Retornou para o Brasil clandestinamente, em 1971, com o objetivo de continuar na luta. Depois da anistia participou da fundação do PT e deu início à carreira política dentro da legalidade. Uma frágil democracia, que até hoje ainda se reconstrói dos escombros, sob o manto da impunidade dos que impingiram o Estado de Terror no Brasil. Um tapete de silêncio ainda encobre fatos que marcaram o período da ditadura.

 Foi deputado constituinte, quando se estabeleceu a Constituição Cidadã de 1988. Também foi artífice da candidatura Lula.  Dirceu é odiado por nunca ter-se curvado. As ocorrências durante o governo Lula são marcadas pela hipocrisia. Aquela mesma que pauta a mídia, quando tenta esconder a Privataria Tucana.

As privatatizações realizadas pelo governo do tucanato foram um gigantesco esquema de caixa dois. O nome é este mesmo, a corrupção maior é decorrente desta indignidade. É o maior já existente na história. Documentos em profusão provam a existência do esquema da privataria tucana. Antes disso, há o canal que abasteceu o pseudo mensalão, que, como todos sabem, foi o valerioduto. Quem montou o esquema, com muitos milhões de dólares, foi o governador de Minas Gerais, o tucano Azeredo. O canal era o caixa dois da campanha do tucanato nacionalmente.

Voltando a José Dirceu, o Zé Dirceu, eu o reconheço como um homem que lutou e que continuou a lutar mesmo depois das torturas. Um homem que teve todas as oportunidades do mundo para abandonar a luta pela reconstrução do País. Ao contrário de muitos, ele nunca mudou de lado.
Enquanto houver o sistema eleitoral montado pelas elites oriundas da ditadura, a corrupção não acaba. Façamos a Reforma Política. Construída por meio de ampla consulta popular e não pelas velhas raposas.

Leila Jinkings. Recife, 12 de junho de 2012.

Bem a propósito, sobre o que escrevi acima, assista a hilária e estarrecedora entrevista de Ciro Gomes.

.

domingo, 3 de junho de 2012

Jornalismo e... jornalismo

Vamos falar sobre liberdade de imprensa?
Mas leiam antes sobre o assunto, informem-se. Ou estarão sendo manipulados desavergonhadamente.

Deixo este vídeo muito interessante e didático, que ajuda a esclarecer as estratégias de dominação. Aproveitem a oportunidade.

Troféu "óleo de peroba" para Alexandre Garcia, que nem "sentiu a ditadura".





Este vídeo mostra o que se esconde por trás dos ataques sistemáticos da mídia brasileira contra a presidenta da Argentina, Cristina Kirchner. Para entender o jogo da mídia contra o que chamam de "kirchnerismo" é importante contextualizar a situação. Antes, vamos usar uma analogia metafórica. Você mora numa grande cidade em que três padarias controlam a qualidade, a variedade e o preço dos pães que você consome. E uma antiquada lei diz que só os políticos podem liberar concessões para novas padarias. E a maioria dos políticos (responsáveis pela tal lei) são donos das padarias; ou amigos destes; ou representantes dos mesmos. Daí, um governante assume a responsabilidade para criar uma nova lei que visa quebrar o cartel, dificultar o monopólio e facilitar o surgimento de novas padarias. O que faz o sindicato dos donos das padarias? Começa a espalhar panfletos dizendo que o governante quer controlar a produção de pães na cidade e ameaça a sua liberdade de escolher o pão que você vai comer. Agora, imagine se, em vez de mandar imprimir panfletos, os donos das padarias fossem donos de todos os meios de comunicação (jornal, rádio, tv etc) disponíveis. E tente imaginar se, em vez de pãezinhos, os produtos em questão fossem as notícias que influenciam a vida todos na cidade. Uma vez exposta esta metáfora, vamos conhecer um pouco a história da imprensa na Argentina para entender o que isto tem a ver com o Brasil.

BRASIL NUNCA MAIS

BRASIL NUNCA MAIS
clique para baixar. Íntegra ou tomos