domingo, 4 de julho de 2010

O Famigerado Comunista


O FAMIGERADO COMUNISTA



Éramos cinco, todos menores de dez anos, em 1964. Na rua onde morávamos, tinha de tudo: comunistas, fascistas, contrabandistas e sabe-se lá mais o quê. Na esquina, os filhos de um juiz xingavam quando passávamos: “Ei, filhos de comunista!”. A princípio nem sabíamos de que nos xingavam, mas logo fomos a meus pais saber o que era comunista.

Meus pais explicaram, mostraram reportagens com fotografias e entendemos que Comunistas lutavam ao lado do povo, era bom ser comunista. E ficamos muito orgulhosos de sermos filhos de comunista. Papai, sempre brincalhão, sugeriu que poderíamos responder a eles dizendo que eram filhos de fascista.

À tarde saímos para a rua armados, prontos para o embate. Todas as tardes passeávamos de bicicleta ou íamos para a praça, sempre passando pelo território inimigo.

- Ei, filhos de comunista!

- Tu é que és filho de fascista! Filho de fasciiistaaaa!


Veio o golpe militar e papai “viajou”. Nossa rotina não mudou: escola pela manhã, trabalho escolar até 4 da tarde e depois rua e, claro, a guerra com os reacionários (essa palavra também aprendemos com papai e mamãe).

Havia na rua um colega nosso que brincava de bicicleta e “pega ladrão”, cujo pai era reacionário e o tio, um bêbado. Ele, nesse dia, chegou excitado e foi logo se dirigindo a nós. Estávamos os quatro irmãos mais velhos e dois primos de nossa idade - Huáscar e Bolívar. Falou: “O pai de vocês, ó: (fez um quadrado com os dedos da mão, significando xadrez, cadeia) tá preso. Pegaram ele lá no Rio de Janeiro.”

Corremos para casa a perguntar a mamãe se era verdade o que havíamos escutado. Mamãe explicou que não era verdade. Aquilo eram apenas boatos que os milicos inventavam para fazer terrorismo com os familiares dos comunistas.

Mas, no dia seguinte, o mesmo colega, apesar de ter “pegado uma carreira” dos meus primos, veio com nova história: “Olha, o pai de vocês foi assassinado, ele fugiu e levou bala lá na Cinelândia. Tava vestido de estudante.”

Fomos chorando para casa e mamãe tentou nos tranqüilizar. Nas rádios e na televisão, no entanto, os repórteres davam a notícia e alguns se referiam a ele como o “famigerado comunista Raimundo Jinkings”. Ela falou que ia telefonar para meu pai e que ele falaria conosco. Mais tarde ela nos avisou que papai viria nos visitar, mas em segredo, pois os milicos queriam prendê-lo porque lutava para que os pobres tivessem os mesmos direitos que nós.

À noite, mamãe nos chamou para o quarto que ficava nos altos e dava para o quintal. Foi muito emocionante encontrar o papai, que nos aguardava. O quarto estava na penumbra, não se podia acender a luz. Talvez houvesse um abajur ou uma vela, pois podíamos enxergar muito bem o papai. E, mais importante, senti-lo. Ele nos abraçou muito, apresentou o camarada que o acompanhava e falou que estava tudo bem, mas que ele estava escondido para que os milicos não o pegassem, porque ele era amigo do Jango e dos comunistas.

Ele estava vestindo um macacão de operário, tinha os cabelos crescidos e estava barbado. Carinhosamente, nos tirou as dúvidas e fez as recomendações que qualquer pai faz, do tipo “sejam obedientes”, “ajudem sua mãe”, além das que só um pai como ele faria: falou que não precisava explicar nada para ninguém e nem deveríamos contar que ele nos visitara, para que não pressionassem a mamãe. E que o importante era que estaria sempre em contato conosco por meio da mamãe.

Jamais esqueci esse momento. Me senti companheira e amiga do meu pai. Muito orgulhosa dele, da sua coragem e da sua generosidade.

Leila Jinkings

original no Blog do Raimundo Jinkings

6 comentários:

José Carlos disse...

Leila, me deixaste emocionado com esse post sobre o famigerado comunista, meu amigo Jinkings! Poxa, que barato, uma viagem no tempo, foi o que eu fiz ao ler teu texto. Bjs
Zé Carlos Gondim

Leila disse...

Ooo, Gondin, que prazer em te ver.
um beijo.

Anônimo disse...

Bacana, eu que vim a conhecê-lo em 80, sei quando vc fala de generosidade do viejo Jinkings;legal!

Cláudio disse...

Muito emocionante! Seu texto me emocionou.
Me orgulho de tê-lo conhecido, em bora muito menos do que gostaria.
Obrigado por seu belo texto e por compartilhar a memória deste grande brasileiro e cidadão paraense.

Chico de Assis disse...

Muito bom o texto, Leila. Sensível, emocionante, humano. Eles, os meninos que gozavam com vcs e com o drama então vivido pelos perseguidos, não vão entender nunca a solidariedade que nasce do companheirismo e do enfrentamento coletivo de situações limite, como as que seu pai viveu.
Tenho um blog tanbém: www.ricochetepoetico.blogspot.com
É um espaço onde fui pondo alguns textos literários e alguns poemas - seara onde milito hoje com mais frequéncia. Tem também alguns poucos txtos políticos. Dê uma olhada lá, quando quiser. Bjo...

Leila Jinkings disse...

Chico, obrigada pela sua visita.
Vou retribuir logo.
abraçaõ

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