sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Idéias, flores e armas


Todas as Armas - reflexões sobre um movimento
Leila Jinkings

O maio de 1968 é um símbolo e o apogeu dos movimentos políticos e comportamentais. Além das barricadas, a imagem que vem a mente são as cores e os sons psicodélicos do movimento hippie e do Tropicalismo.


O movimento hippie desperta reações diversas e apaixonadas. Uns rotulam de "um bando de porras-loucas, drogados e vagabundos", outros, de que "era só sexo, drogas e rock and roll" e, ainda, "um movimento de burguesinhos", "alienados", e por aí vai. Muitos o compreendem como a utopia de romper as estruturas da sociedade por meio da prática de ações libertárias. Não costuma ser prudente definir com rigidez movimentos dessa amplitude. A dinâmica da história ensina que o movimento social surge, geralmente, de um acúmulo de fatores que tem sua catarse em dado momento. O epicentro do movimento foi, sem dúvida, nos EUA, a reação à guerra contra o tão minúsculo quanto bravo povo vietnamita.


O movimento hippie não pregava apenas a paz e o amor. Ingênuo ou não, eles queriam o bicho homem mais importante que tudo. Queriam a sociedade voltada para o bem estar da humanidade. Pregavam a liberdade de dispor do próprio corpo, de viver e de amar como quiser. "Make Love. Not War". Mas o cerne do movimento era contra a sociedade do consumo.


No mundo todo, a juventude começava a reagir ao conservadorismo e à repressão sexual. Focos pelo mundo, foi nos EUA onde se percebeu a cristalina explosão daquela ruptura de valores. Após a Segunda Guerra Mundial, ainda durante o nefasto macartismo, surgiu o movimento que ficou conhecido como beatnik, liderado por poetas e estudantes. A geração beatnik abria a cabeça para conhecer a cultura negra, a cultura nativa dos índios, além da cultura oriental. Conheceram aí filosofias e religiões, além da música indiana, que passaram a influenciar a criação artística. O termo hippy é derivado de "hipster", usado para designar os brancos que se envolviam com a cultura negra e a índigena. A contracultura cria corpo com o combate à política externa de dominação estadunidense.


Tinha início, nos EUA, uma onda de protestos contra a guerra do Vietnã. No Brasil, contra a ditadura. A repercussão dessa guerra era mundial, assimilada de acordo com as conjunturas locais. No Brasil, a guerra repercutia na resistência contra a ditadura, que era apoiada e orientada pelo mesmo agressor. O pensamento de Ho Chi Min tinha grande aceitação por representar um povo heróico que resistia à ocupação do gigante.


A fotografia e a televisão levam as notícias da guerra e promovem um grande impacto no mundo. Nos EUA, além do conservadorismo, havia quem apoiasse a guerra, enganados pela propaganda. Mas não o meio intelectual e estudantil, que repudiava firmemente a política externa de Washington. Após as primeiras manifestações, intramuros universitários, os protestos tomaram as ruas. Percebendo o poder da comunicação de massa, exigiam liberdade de expressão, questão já abordada desde 1964, quando ocorreu o "Free Speech Movement" (Movimento pela Liberdade de Expressão).


A luta contra a guerra une a juventude do mundo. “Mas quem tomou as grandes decisões em 1968? Os movimentos mais característicos do 68 idealizaram a espontaneidade e se opuseram à liderança, estruturação e estratégia”, disse Eric Hobsbawn. Havia uma nova maneira de pensar e de agir. Inovou-se em tudo. As manifestações, sob a vista da TV, eram muito visuais, com slogans, cartazes coloridos, faixas e muita pichação. Se o carro chefe dos protestos nos EUA era a invasão ao Vietnã, na França era o autoritarismo e na América Latina a luta contra a ditadura.


Uma parcela da juventude estadunidense passa a manifestar-se de uma forma diferente: tentavam traduzir seus anseios - de acabar com a guerra e com o consumismo da sociedade capitalista - pregando um estilo de vida alternativo. Eles eram contra a guerra e defendiam que se precisava mudar a sociedade. Questionavam a autoridade, a hipocrisia da moral burguesa e a ganância. Criticavam os meios de comunicação de massa e a economia de mercado. Repudiavam a repressão sexual cristã e, para defender a liberdade sexual, praticavam o amor livre ostensivamente. Vestiam-se com roupas coloridas e artesanais. As roupas usadas, compradas nos bazares, recebiam bordados, bótons, retalhos, incluindo brincadeiras com roupas formais como o paletó.


Usavam flores, colares, pulseiras, tudo muito colorido como a celebrar a vida. A busca por novas culturas trouxe-lhes conscientização sobre os benefícios do uso de produtos naturais e o amor à natureza. Passaram a viver em comunidades rurais, onde consumiam o que plantavam. A maconha substituiu as drogas da sociedade de consumo, o álcool e o cigarro. O trabalho era coletivo. Educavam os filhos coletivamente. Tudo era dividido e respeitado pela comunidade. Para a sobrevivência, fabricavam peças artesanais, que eram vendidas juntamente com o que plantavam. Era a sua utopia de sociedade igualitária.


Em contraponto à convocação para a guerra, os hippies pregavam a desobediência civil e deixavam os cabelos crescerem. Nas drogas, procuravam a abertura da mente a novas percepções, a elevação do espírito, a meditação e a criatividade. Além da "marijuana", adotaram o uso do LSD, que já vinha sendo difundido nas universidades. Usavam também o "cogumelo mágico", encontrado em fazendas onde se cria gado e que contém substâncias alucinógenas.


A música, principalmente o rock, foi a maior expressão artística desse movimento, cujos expoentes, com letras inteligentes e de conteúdo contestador, são Bob Dylan, Joan Baez, Janes Joplin, Jimi Hendrix e Joe Cocker. A música "Blowin in the Wind", de Dylan tornou-se quase um hino. O festival de Woodstock - Festival de Música e Artes de Woodstock, em uma fazenda nos arredores de Nova Iorque, foi o momento mais marcante do movimento, com três dias de musica e quase 500 mil pessoas presentes. Foram três dias de paz, amor e musica, com liberdade sexual, liberdade para usar drogas livremente e um espírito de comunidade que garantiu a ordem - nenhum registro de violência ou roubo -, deixando à policia apenas o controle do trânsito caótico.


A sociedade capitalista, como de hábito, absorveu oportunisticamente o movimento contestatório e, desvirtuando o estilo de vida, transformou-o em mais uma mercadoria a consumir. A moda hippie passou a ser exposta em vitrines e a indústria cultural explorou ao máximo a arte e a música produzidas. Decepcionados, os autênticos praticantes passaram a evitar a superexposição. Por outro lado, o preconceito da classe média, por toda parte, marginalizava aqueles que aderiam à filosofia hippie. Os "ripis", estendendo-se aos artesãos, passaram a ser sinônimo de vagabundos, desocupados e maconheiros.


O legado desse movimento, porém, é significativo: foram eles que introduziram a preocupação com o meio ambiente e com a natureza e introduziram os alimentos naturais. Questionaram a convenção do casamento e pregaram a revolução sexual e a igualdade, reflexões que repercutiram com importância nas décadas que seguiram. Introduziram, também, a ioga, a meditação, as culturas ocidentais e primitivas, a literatura esotérica, ampliando as reflexões filosóficas em contraponto ao catolicismo dominante. Exibiram ao mundo que "outro mundo é possível". O seu espírito de experimentação e as suas inquietações colocaram em cheque a cultura de massa, influenciando positivamente a juventude.


Aqui no Brasil, enquanto isso, o movimento que culminou com o Tropicalismo, guarda uma significativa identidade com o hippie: o psicodelismo, a busca de inovações, a rebeldia e a quebra de tabus, entre outros. O regime ditatorial, implantado com o golpe militar de 1964, provocou uma necessidade de expressão cultural que se refletia nas artes. A música de protesto, as artes gráficas, o teatro e o cinema tiveram intensa produção nesse período. Os Mutantes à frente, junto com Rogério Duprat, Tom Zé, Gilberto Gil e Caetano Veloso, revolucionaram a música e a poesia. Eles também buscaram se diferenciar no comportamento social, na vestimenta e na busca de culturas esotéricas.


Mais à frente, Raul Seixas funda a Sociedade Alternativa, com influência esotérica e da cultura hippie, fortemente libertário. "Faz o que tu queres, pois é tudo da lei".


Na política, não foram vitoriosos, nem os que lutaram com as flores e nem os que pegaram nas armas. Do que foi plantado, no entanto, muitas sementes germinaram. As liberdades democráticas, a participação da mulher, a igualdade racial, a supremacia intelectual sobre as trevas da repressão comportamental são frutos que abriram caminhos.

2 comentários:

Cris Moreno disse...

Leila, estou só com o morenocris.blogspot.com

Coloquei os teus links lá.

Beijos.

Anônimo disse...

Nossa adorei o texto!! Deu pra ter uma boa noção do que foi o movimento e aproveitei pra dar uma lida sobre a Tropicalia,dei uma revirada aqui em casa e ainda achei alguns cds de Os Mutantes,Tom Zé.A música deles eram muito boas!Dei uma lida nas letras também.
As vezes sinto que nossa geração deveria fazer alguma coisa para mudar.Nós raramente reivindicamos algo,o sistema já nos alienou de tal maneira que raramente nos posicionamos contra alguma coisa e a maoir parte do tempo tudo parece tão normal:um desvio de dinheiro,uma obra inacabada,a privatização de nossas empresas.Apenas mais uma cena cotidiana.

Felipe Rodrigues Ferreira

BRASIL NUNCA MAIS

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